segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Estátuas não choram - Statues don't cry

Cineminha de domingo. Você está tranquilo, plenamente entretido com seu balde de pipoca, acompanhado por um litro de manteiga e mais outro de Coca-Cola, quando alguma cena do filme, sem mais nem menos, traz à tona a lembrança do seu avô falecido, ou do seu cachorro de infância, ou de qualquer outro ser vivo, ou morto, que faça suas glândulas lacrimais tremelicarem. Até aí tudo bem. O problema é quando o filme acaba e o maldito do lanterninha não espera nem os créditos começarem a subir para acender as luzes da sala. Não adianta tapar o rosto. Não adianta fingir que está procurando o celular embaixo da poltrona. Todo mundo sabe, todo mundo viu: você chorou.

Sua mulher, que deveria ser processada pelo Greenpeace de tanto papel que usou para enxugar os olhos, rapidamente saca os óculos escuros da bolsa e age como se nada tivesse acontecido. E você fica ali, provando sua incompetência em manter a reputação, incriminado por uma dupla de olhos ridiculamente inchados e vermelhos, sem contar o nariz escorrendo. A humilhação fica ainda pior quando você por coincidência encontra aquele indivíduo do trabalho, que você não lembra o nome, e que começou a roncar aos dez primeiros minutos do filme, e que por isso – só por isso – não sucumbiu à cena do enterro do cachorro. Você fica na dúvida se é melhor cumprimentar o sujeito ou se enfiar na lata de lixo. Mas não pensa muito a respeito, para não acabar junto com os sacos de pipoca.

Desconsiderando esses pequenos vexames do cotidiano, uma boa dose de choro sempre ajuda a levantar o Ibope, que o digam os bebês e os autores de novela das oito. Certamente você já ouviu falar daquelas imagens de santa que, entediadas com seu trabalho de estátua, de uma hora para outra decidem que são gente e começam a lacrimejar. Houve até um caso de uma que, com mais tino para negócios e percebendo a forte concorrência das colegas, teve a grande ideia de chorar sangue, embora eu e meus botões suspeitemos que tenha sido ketchup. A estratégia deu certo. Logo a santa estava em tudo o que é noticiário e multidões de curiosos invadiam a igreja, espremidos para ver e tocar a santa milagreira, prometendo mundos e fundos em troca de todo tipo de graça possível, na maioria das vezes impossível, num boom turístico de deixar o Mickey Mouse e a sua Disneylândia se roendo de inveja.

Acredito em Deus, rezo todas as noites e faço promessas regulares para Santo Antônio. Não tenho intenção alguma de zombar da fé ou das viagens de ninguém. Meu ponto é que algumas lágrimas aqui e acolá sempre causam uma enorme comoção. E se utilizadas no momento certo, podem lograr mais milagres do que muito santo por aí.

O namorado não quer casar? Diga que tudo bem, com ar de compreensão, e deixe uma discreta lágrima escorrer pelo canto do olho. Se o cara estiver em dúvida, garanto que marca a data.

Se for o contrário, se for ela que não quer morar junto sem antes gastar zigalhões numa festa de casamento, argumente que vocês podem utilizar esse dinheiro para dar a entrada no apartamento, para mergulhar na Polinésia, ou – aqui é preciso embargar a voz e encher os olhos d’água – para decorar o quarto do seu primeiro filho. Pode não funcionar. Talvez você tenha que torrar o seu suado dinheiro em bem-casados. Mas não custa tentar.

Eu confesso que gastei de bom grado os meus trocados, tanto na festa do casório, quanto para esperar o Antonio. E foi um investimento bem feito, porque se tornaram excelentes lembranças, que volta e meia surgem na memória e sempre fazem um cisco cair em cada um dos olhos. O interessante é que as cenas que mais retornam não são as ocasiões clássicas, como o dia em que ouvi pela primeira vez os batimentos cardíacos do meu filho. Para mim, foram mais marcantes os momentos de simples expectativa, como a tarde em que tirei centenas de fotos da Ana e do seu barrigão.

Certa noite, assim que deitamos na cama, a Ana dá um pulo e anuncia: a bolsa estourou. Achei que ia cuspir meu coração pela boca, mas fingi estar tranquilo diante da situação. Minha mulher também dissimulava seu nervosismo com bastante competência. E nesse me engana que eu gosto, fomos vivenciando aquela sequência de eventos que ocorre de forma parecida para todo mundo, começando pela corrida ao hospital, terminando no berro do neném.

Só que a vida não segue a lógica das comédias românticas e, para a minha surpresa, não houve berro do neném. Quando o Antonio saiu da barriga da Ana, ele não chorou. Ninguém nos deu os parabéns, ninguém mostrou o bebê para a gente, não tiramos aquela foto pós-parto em que todos saem horrorosos e lindos ao mesmo tempo, aos prantos de tanta emoção. Confuso por aquele silêncio inesperado, corri atrás do médico que levou meu filho dali. O choro do Antonio demorou pra vir. E quando finalmente veio, saiu fraco, soou diferente. Senti um fraquejo no corpo. A notícia ainda não tinha sido dada, mas eu já podia senti-la. Não estava tudo bem.

Nos minutos seguintes, fui avisado da suspeita de síndrome genética. Conversei com a Ana, liguei para a família, tomei algumas providências e depois de tudo mais ou menos ajeitado, fui para casa tomar um banho. Sozinho, escondido, chorei. Chorei como não fazia há muito tempo. Chorei de tristeza.

Em pouco tempo o desespero se transformou em raiva, depois em aceitação, depois em ação. Por instinto de sobrevivência, ou talvez por postura de vida, deixei o sofrimento cortar e sangrar, mas com a clara intenção de sair calejado lá na frente e retomar a vida.

Outro dia o escritor Paulo Coelho publicou que “a dor assusta quando mostra sua verdadeira face, mas seduz quando vem disfarçada como sacrifício ou renúncia.” Não poderia sintetizar melhor o desafio que tenho à minha frente nesse momento. A dor de ter um filho especial vem anestesiada pelo amor incondicional que se nutre a qualquer filho. E essa dor pode, mesmo nos pais mais esclarecidos, gerar uma falsa sensação de mártir, uma equivocada impressão de que somos seres humanos melhores porque renunciamos a muito, quando não a tudo, para cuidar das nossas crianças.

Pai e mãe são tudo igual. Meus desejos depois de ter o Antonio são os mesmos que os dos meus amigos que tiveram filhos. Quero dormir até tarde nos finais de semana, mesmo sabendo que isso é quase impossível. Quero acertar na loteria, pra não me preocupar com o preço das escolas. Quero ir ao cinema. Quero ter mais filhos e espero que eles berrem ao nascer.

Encontrei um canto aqui dentro para hospedar a minha dor, mas a tenho mantido fraca, com pouca água e pouca comida. Espero que um dia ela canse dessa vida de miséria e vá tentar a sorte em outro lugar. Ainda mais agora, que o Antonio tem reconhecido a minha voz e me olha com um esboço de sorriso quando falo com ele. Se você deixar, a vida mostra que rir é bem melhor do que chorar.


Statues don’t cry

Sunday movies. You are enjoying yourself, fully entertained with your popcorn bucket, followed by a jar of butter and one other of Coke, when some given scene in the movie, no warning, brings back the memory of your dead grandad, or childhood dog, or any other living being, or dead one, that make your lacrimal glands trumble. So far, so good. The problem is when the movie is over and the goddamn usher doesn’t wait until the credits are over to turn on the lights. It’s no use covering your face. It’s no use pretending you are looking for your cellphone under the chair. Everyone knows, everyone saw: you cried.

Your wife, that shoud be sued by Greenpeace for the amount of paper she used to clean her tears up, rapidly grabs her sunglasses off the purse and acts like nothing ever happened. And you lay there, proving your incompetence on keeping your reputation, framed by a pair of eyes foolishly swollen and red, not counting on the running nose. The humilliation gets even worse when, coincidently, you run into that fellow from work, whose name you just can’t recall, and who started snoring at the first ten minutes of the movie, and for that, just for that, didn’t succumb at the scene of the burial of the dog. You wonder if it is better to talk to the guy or to crawl into the garbage can. But you don’t give it too much thought, so you don’t end up along with the wasted popcorn bags.

Disregarding this little daily shames, a good dose of crying always help raising up the charts, say the babies and the screen writers. Certainly you’ve heard about those statues of saints that, bored with their job, suddenly decide they are just like real people and start dropping some tears. There was even one that, having a better feeling for business, and realizing the strong competition among its fellow statues, had the great idea of crying tears of blood, although I suspect that it had been ketchup. Strategy worked out. Soon the statue was all over the news and crowds of curious people were storming into its church, squeezed in to see and touch the miraculous sculpture, in a touristic boom that would let Mickey Mouse and his Disneyland gnawing of envy.

I believe in God, I pray everynight and I make regular promises to Saint Antonio. I have no intention of mocking the faith or any person’s delusion. My point is that some teardrops here and there always cause an enormous commotion. And if used properly, it can do more miracles than many saints around. Your boyfriend doesn’t want to get married? Say it is alright, with an understanding feeling, and let a discrete teardrop run down your face. If the guy is at least considering marrying you, I guarantee he sets the date.

If it is the other way around, if it is her that doesn’t want to move in together without spending millions on a wedding, argue that you can use that money to start paying for the apartment, to dive in Polynesia, or – here you must fill your eyes with water – to decorate your first son’s bedroom. It may not work. Maybe you will have to spend all your hard working money on the wedding cake. However, it never hurts to try.

I confess that I have spent willingly my pennies, not only at the wedding party, but also while expecting my son Antonio. And they were very well done investments, because they became great memories, that sometimes emmerge in my memory and always fill my eyes with tears. The interesting part is that the scenes that I remember the most aren’t those classic ones, such as the day that I heard my son’s heartbeat for the first time. To me, it was the moments of simple expectation that stood out, such as an ordinary sunny afternoon, when I took countless pictures of Ana and her big belly.

Few weeks after that, one given night Ana suddenly jumps from bed and announces: the water broke. I thought I was going to spit my heart out, but pretended being calm towards the situation. My wife also disguised her jitters with great competence. And in this “you could have fooled me” kind of thing, we were experiencing that sequence of events that occur in a similar way to everyone, starting at the run to the hospital, and ending at the baby’s scream.

However, life is not like in the movies. And, to my surprise, there was no baby scream. When Antonio came out of Ana’s belly, he didn’t cry. No one congratulated us. No one showed the baby to us. We didn’t take that after-deliver-baby’s-picture, in which everyone looks awful and beautiful at the same time, crying with excitement. Confused by that unexpected silence, I ran after the doctor that took my son out of the surgery room. Antonio’s cry took some time to happen. And when it finally happened, it came out weak, it just sounded different. I felt a weakness in my body. The news hadn’t been given yet, but I could see it coming. Something was wrong.

In the following minutes, I was told about a genetic syndrome suspition. I talked to Ana, I called our families, and, after everything sort of taken care, I went home to take a shower. Alone, hidden in my bathroom, I cried. I cried as I hadn’t for a long time. I cried because of the deepest sadness I’ve ever felt.

It didn’t take long for the despair to turn into anger, the anger turn into acceptance, and finally, the acceptance turn into action. For survival instinct, or maybe for life posture, I let the grieve cut and bleed, but with clear intention on getting out of there weathered out and get on with my life.

The other day, writer Paulo Coelho published that “pain scares us when it shows its true face, but seduces when it comes disguised as sacrifice or resignation”. I couldn’t better synthesize the challenge that I’m ahead at this moment. The pain of having a son with special needs comes numbed by the unconditional love that you nurish to any son. However, even on the most enlightened parents, that pain can generate a false sense of martyr, a mistaken impression that we are better human beings just because we renounce to a lot to take care of our children.

Parents are all the same. My desires after having Antonio are the same that the ones my friends had after having their children. I want to sleep late on the weekends, even thought I know that it is almost impossible. I want to hit the lottery, so I don’t have to worry on the price of the schools. I want to go to the movies. I want to have more kids and I hope that they scream out loud when being born. I found a corner inside my body to lodge my pain, but I have been keeping it weak, without much water or food. I hope someday this pain gets tired of this misery and try its luck in another body. Especially now, that Antonio has been acknowledging my voice and looks at me with a sketch of a smile when I talk to him. If you let, life shows that laughing is much better than crying.

Tradução: Alexandre Marcílio

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Aviso aos navegantes - Note

Para manter a viabilidade deste blog na vida de um pai de família, os textos a partir de agora serão atualizados todas as segundas-feiras, podendo haver posts esporádicos em outros dias, se o assunto pedir e se o tempo permitir. 

Note: To keep this blog possible in a father’s life, from now on the texts will be posted every Monday, with a possibility of some in the middle, if the subject asks for it, or if time allows.


Tradução: Mariana Casals

O técnico - The coach

Quando eu era pequeno, meu pai me levou a uma escolinha de futebol. Não tenho a menor ideia por quê, mas eu fiquei lá, parado, feito burro empacado, e não havia nada na que me fizesse entrar no campo. Lembro vagamente da cena, mas o motivo de não querer jogar é um daqueles mistérios da alma que nem hipnose ou regressão desvenda. Irei para o caixão sem saber.

Faltou-me visão. Aos cinco anos eu já deveria ter concluído que aquilo sim era futuro. Morar na Europa, dirigir carrões, escolher mulheres, ganhar rios de dinheiro, tudo sem ter que ser capaz de pronunciar palavras desnecessárias como “inconstitucional”, ou mesmo as necessárias, como “brócolis” ou “registro”.

Ser jogador de futebol era o sonho de dez entre dez amigos, e eles treinavam com afinco, manhã, tarde e noite, para tal. Matavam aula para continuar a pelada do recreio. Tomavam bronca das mães para ficar mais uns minutos na rua. Eu deveria ter percebido que era um bom negócio. Todos os sinais estavam ali, bem na frente do meu nariz, mas meus três graus de miopia, que vieram a público muitos anos depois, já começavam a produzir os seus efeitos. Enveredei para o rumo errado.

Por volta dos doze anos, me divertia com brinquedos que passavam absolutamente despercebidos pela maioria, como uma antiga máquina de escrever Olivetti, que suponho ter sido do meu avô materno. Era absurdamente pesada, invariavelmente empoeirada, e não tinha algumas teclas, o que fazia eu machucar meus dedos para apertar o “d” ou o “r”, mas não me impedia de continuar produzindo meus jornais, poesias e outros escritos que ninguém viria a ler.

Pouco tempo depois, desenvolvi um estranho prazer em passar as tardes na biblioteca de um tio, um lugar com pouca luz e muita umidade, cheio de livros esquecidos, amarelados, muitos em línguas que eu não entendia, mas com um cheiro de passar dos anos que me fascinava, especialmente quando encontrava algo inadequado para a minha idade. Com meus hormônios esperando ansiosamente para se transformarem em espinhas e poluções noturnas, nem preciso dizer que qualquer título com uma mínima insinuação sexual fazia enorme sucesso naquelas tardes, arrebatando este pobre leitor como mosca em teia de aranha, sem chance alguma de escapar.

O culpado pelo meu nascimento
Prudentemente, meus pais de vez em quando me tiravam daquela bolha de perversão e me matriculavam em aulas de tênis, natação, capoeira e violão, numa tentativa, de certa forma bem sucedida, de me transformar em um garoto normal. O meu pai, que teria um legado valiosíssimo a passar para um filho que com mais aptidão para os esportes, foi conformadamente criando aquele adolescente que indiscutivelmente era dele, por ser quase idêntico, mas que pelo jeito tinha herdado alguns genes subversivos da mãe, que sempre foi afeita a substâncias aditivas como poesia e filosofia.

Mesmo sem resultados expressivos por anos a fio, meu pai surpreendentemente não desistiu de me tirar do banco, ao que sou muito agradecido. Foi ele que me deu todas as camisas do Grêmio que tenho, e que uso com muito orgulho. Otimista, é ele quem sempre me aconselha a fazer exercícios com maior frequência, levantando motivos nobres, como ter músculos para carregar o Antonio, e faz eu voltar pra casa com um plano infalível de correr três vezes por semana, a começar, sem falta, na semana que vem. É com ele que gosto de assistir esportes e fazer minhas perguntas idiotas, às quais ele responde com informações detalhadas de nome, número e posição do jogador, bem como comentários generalizados sobre os times em que ele atuou e uma avaliação informal se o cara é craque ou perna-de-pau.

Entretanto, muito mais do que tentar me ensinar onde e como chutar a bola, meu velho me ensinou que ser pai é como ser um técnico da vida. É treinar seu filho para a vida adulta, doa o que doer. Ele, mais do que ninguém, me ensinou que o jeito certo de vencer é com estudo e trabalho, e não com sorte ou indicações. Deu tudo o que tinha e o que não tinha para eu crescer forte, corado e fluente em inglês, mas a partir de um certo momento me jogou para fora do ninho, pra que eu aprendesse a voar por conta própria. Até hoje monitora, com olhos atentos, se estou bem, se estou feliz, mas mantém uma distância segura, para que eu seja dono do meu nariz e do meu destino.

Divido tudo isto porque é do meu pai o comentário mais recente que recebi aqui no blog. Ele publicou logo abaixo do texto “Querido filho, ou filha”, uma carta que escrevi ao Antonio. E ali, em poucas palavras, reconheci o DNA da minha família. O código genético e ético que tive a sorte de herdar. E vi um belo resumo de tudo o que quero passar para o meu filho.

“Querido neto Antonio, você veio completar meu time favorito. Você, Dudu, Lipe, Quique e eu vamos formar um timaço. Pressinto que ao crescerem deverão me deslocar para o gol, onde, certamente, vou ajudá-los com muita tenacidade a fazerem muitos gols de amor ao próximo, honestidade, decência, profissionalismo, amizade... Você é o caçula, o fofucho da hora, seja bem-vindo ao nosso clã. Quem sabe a vida não nos reserva outras surpresas e será você aquele que vai nos ensinar o que é o verdadeiro amor e o real sentido de viver.”

Obrigado, pai, por estas palavras. E por tudo mais.

 
The coach

When I was little, my father took me to a soccer school. I have no idea why, but I stood there, stuck like a mule, and there was not a thing in the world that would make me go in the court with the other kids. I remember that day vaguely, but the reason why I didn’t want to play is one of those mind mysteries that not even hypnosis or regression would solve. I’m sure I will die without knowing it.

Now I see that I lacked vision. At five, I should have concluded that being a soccer player was the best future one could have. Living in Europe, driving fancy cars, picking up women like fruit on the market, earning huge amounts of money. And even if you are not able to pronounce words correctly, you can still have all this.

Being a soccer player was the dream of all my friends, and they practiced very hard every day, at any opportunity. They skipped classes just so they wouldn’t have to quit the game started during the break. They got in trouble with their mothers because they would always keep playing until late in the streets. I should have noticed it was a good deal. All the signs were there, right in front of me, but my myopia, which was disclosed many years after that, had already started blurring my capability of seeing ahead. I came over the wrong side.

When I was around twelve years old, instead of enjoying soccer balls, I had fun with toys that would be missed by most, like an old Olivetti typewriter machine (that I suppose belonged to my maternal grandfather). It was absurdly heavy, invariably dusty, it missed some keys, which made me hurt my fingers to type “d” or “r”, but it didn’t stop me from continuing producing my newspapers, poetry and other pieces of writing no one would ever read.

A little after that, I developed a weird pleasure for spending my afternoons in the library of an uncle, a place with little light and lots of moisture, filled with forgotten, antique books, many in languages I didn’t understand, but with a scent of aging paper that fascinated me, especially when I found something inappropriate for my age. With my hormones waiting to become zits and nocturnal emissions, I don’t even need to say that any title with the smallest sexual connotation was a big hit in those afternoons, catching that young reader as a defenseless fly in a spider web, no chance of escaping.

Once in a while, my parents wisely removed me from that bubble of luxury and enrolled me in tennis classes, swimming classes, capoeira classes, guitar classes, in a fairly successful attempt to turn me into a normal kid. My father, who would have an invaluable sport skills legacy to pass on to a more athletic son, was accordingly raising that teenage boy (me), which was undoubtedly his heir, because of the physical similarity, but had unfortunately inherited some of his mother’s subversive genes (my mother has always been addicted to dangerous substances like poetry and philosophy).

Even with low or no chance of success at all, my father has never given up on trying to make me leave the bench, to which I am very grateful. He is the one to give me all my soccer team jerseys, which I wear very proudly. Optimistically, he is the one to advise me to exercise more often, pointing out some noble reasons, like “you need muscles to carry Antonio”, and makes me come home with an infallible plan to start jogging three times a week, although I always delay my start day to the next week. It’s with him that I like watching sports and making my stupid questions, to which he answers with detailed information about name, number and player position, as well as general comments on the teams in which they have been in and an informal evaluation of how good of a player they are.

Still, much more than simply just teaching me how and where to kick the ball, my father taught me that being a father is like being a life coach. It’s training your child to adult life challenges, despite the pain. My father, better than anyone else, taught me that the right way to succeed is studying and working hard, instead of counting on luck or favoritism. He spent every cent he had and even some money he didn’t have so that I could grow up strong, healthy and fluent in English. However, at a certain moment he threw me out of his nest, so that I could also learn to fly on my own. Until now he is always carefully monitoring if I am happy, but he keeps a safe distance, so I can be my own man.

I’m sharing all of this because it’s from my father one of the most outstanding comments I got here on this blog. He published just below my post “Dear son, or daughter”, the letter I wrote to Antonio. In his comment, in just a few words, I recognized the family’s DNA. I could see not only the genetic code, but also the moral code I was lucky to inherit. He wrote a beautiful summary of everything I want to pass to my son. (PS: Dudu, Lipe and Quique are my father’s other grandsons, my nephews, Antonio’s cousins).

Here it goes:
“Dear granson Antonio, you came to complete my favorite team. You, Dudu, Lipe, Quique and I are going to make a great team. I foresee that, as you guys grow older, you will rather put me as a goalkeeper, where, certainly, I’m going to help you score lots of goals like respecting others, goals of honesty, decency, professionalism and friendship. You are the youngest grandson, the new cute one, welcome to the club. Who knows life might bring other surprises and it may be you the one to teach us what is true love and the true meaning of living.”

Thank you, dad, for these words. And for everything else.

Tradução: Mariana Casals

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pensem, pensem, pensem - Think, think, think

Há muitos anos, muito antes de eu passar cerca de oito horas dos meus dias vendendo cola de dentadura, shakes dietéticos e empréstimos bancários a taxas imperdíveis, fantasio com a ideia de transformar a quarta-feira em domingo.

Nenhum problema com a profissão que eu escolhi com toda a maturidade e auto-conhecimento que se tem aos 17 anos. Mas na minha opinião, um dia em que o indivíduo não tem tempo nem para almoçar não pode ser apropriadamente chamado de útil. E creio honestamente que Deus tenha adorado criar as plantas, os animais e as pessoas, porém aposto que Ele só foi feliz mesmo no seu domingão, com seu belo caneco de cerveja de trigo e futebolzinho na TV, e tantas outras maravilhas que inventou, mas que só pode desfrutar em um dia inútil.

Logo que comecei a trabalhar em agência de propaganda, um profissional respeitadíssimo da área escreveu um texto em que dava o seguinte conselho para uma turma de formandos: “trabalhem, trabalhem, trabalhem”. À medida que percebi que o autor não só era brilhante, mas que também tinha toda a razão, senti um frio na espinha. Ingênuo até a fronteira com a estupidez, eu acreditava do fundo do meu coração que tinha escolhido uma profissão em que as pessoas liam, liam, liam. Que iam ao cinema, iam ao cinema, iam ao cinema. Que viviam, viviam, viviam.

Ao contrário das minhas expectativas, cruzei com um monte de sujeitos de poucos livros na estante, cabelos esquisitos e que enchiam o peito para dizer que não tiravam férias há cinco anos. Os anos foram passando – e eu seguindo piamente a recomendação de trabalhar sem pestanejar – até que tomei coragem de parar, pensar melhor e discordar do guru, pelo menos em parte.

Pela ordem natural das coisas, formiga é formiga e homo-sapiens é homo-sapiens. Não nascemos para carregar pedra. Nascemos para pensar. O trabalho exaustivo traz frutos sólidos, sem dúvida. Mas as experiências de vida, mesmo as exaustivas, têm valor igual ou maior. Minha proposta é um equilíbrio mais justo entre trabalho e descanso, trabalho e descanso. O repouso é uma oportunidade para refletirmos se o nosso ganha-pão é o caminho que queremos da vida. E, se for o caso, ainda ajuda a juntar forças para recomeçar. Conheço uma dentista que está virando advogada aos 30. Jantei no restaurante de um médico que virou chef depois dos 40. Essas pessoas respiraram. E escolheram uma nova estrada para andar.

Outro dia estava comentando com um colega de trabalho o quanto tenho sido acordado à noite pelo Antonio. O meu amigo, que é pai de uma menina de 11 anos, contou que nos primeiros anos chegou a ter que dormir no berço da filha, para que ela parasse de chorar. Coincidentemente, pouco tempo depois, descubro um filme espanhol da Coca-Cola, para o dia dos pais, muito singelo e verdadeiro, inspirado exatamente nessa situação. Ponto para os hereges que escolhem sair às sete e passar as noites com suas famílias. Não posso afirmar, mas tenho um forte pressentimento de que o criativo que teve a ideia do comercial vivenciou aquilo na pele.

 

Meu elogio ao ócio parte da premissa de que ele seja desfrutado de forma responsável. Não pode faltar comida em casa. Mas uma vez supridas as necessidades básicas, ligue sim para os amigos e saia para tomar uns chopes. Às vezes, em busca da nova Mercedes, ou do novo cargo, vamos deixando a vida passar. Até que ela vem e nos dá um tapa na cara, com uma doença, com um filho especial, com o que quer que seja necessário para você acordar.

Já que o tema é publicidade, deixo aqui um outro filme, também espanhol, também da Coca-Cola, que tem uma mensagem emocionante sobre tudo isso que estou falando. Certamente o senhor do comercial também deseja que a quarta-feira se transforme em domingo. Aos 102 anos, ele sabe que a vida é muito curta para pensarmos apenas em trabalhar. Bom final de semana.


Think, think, think

Many years ago, way before I started spending eight hours of my days creating ads to sell denture adhesive, dietetic shakes and bank loans (“in rates one cannot miss”), I began wondering how nice it would be if we could turn Wednesdays into Sundays.

I have no problem with the profession that I chose with all the maturity and self-knowledge one has at age 17. But, in my opinion, if a person doesn’t even have time to stop working for lunch, the day shouldn’t really be called useful. I honestly believe that God must have loved creating plants, and animals, and people, but I also bet that he must have been truly happy on a Sunday, resting with his big mug of beer, with his football on TV and with many other wonders that He had invented, but that one can only really enjoy in useless days.

Soon after I started working at an ad agency, a very well known Brazilian copywriter wrote an article in which he gave a piece of advice for fresh advertising graduates: “work, work and work”. As I realized the author wasn’t just brilliant, but also that he was absolutely right, I felt a chill down my spine. As a naïve boy, almost stupid, I had believed deeply in my heart that advertising guys were people that read, read and read. I had believed I would be able to go to movies, go to the movies and go to the movies. I thought that admen in general were people that had time to enjoy life, enjoy life and enjoy life.

Instead, I came across lots of work colleagues that had few books on their shelves, that wore weird hairstyles and that were full of themselves while proclaiming they did not have a single day on vacation over the last five years. Time went by, and I followed blindly the advice to work, work and work. However, one given day I had the courage to stop for a moment, rethink and disagree from the well known copywriter, at least partially.

By rules of nature, ants are ants, and homo sapiens are homo sapiens. We were not built to spend our lives carrying stones. We are made to think. No doubt that exhaustive work brings along solid results and success. However, simple experiences from everyday life outside work are, in my opinion, equally valuable, or even more valuable. My proposition is a fairer balance between work and rest, work and rest, work and rest. Resting is an opportunity to think over if our job is really the path we want for life. And, in case you decide to make a big change, resting still helps to gather strength and start again. I know a dentist that is turning into a lawyer at age 30. Recently, I had dinner in a restaurant of an ex-doctor, who decided to become a chef long after he was 40. Those people took their time to breathe. And they have chosen a new path to walk on.

The other day I was talking with a co-worker about how often I have been awakened at night by Antonio. My friend, who is a father of an 11-year-old girl, told me that, at some point in the past, he had to sleep in his daughter’s cradle, so she would stop crying. A while after that, coincidently, I found out a Coca-Cola commercial for Father’s Day, created in Spain, that was very true, very simple and surely inspired by that exact situation. High five to all people who have the guts to leave work punctually at 7 p.m. and go home in order to spend time with their families. I cannot assure, but I have a strong feeling that the creative mind who had the idea for that Spanish commercial lived through that exact situation.(Watch it in Spanish on the YouTube link above. Translation: "For each corrupt man... there is 1 million dads doing all they can, asking for nothing. There are reasons to believe in a better world. Happy Father's Day.")

My advocacy in favor of idleness depends on the premise that it must enjoyed in a responsible way. There must not be an empty fridge at home. However, once the basic needs are fulfilled, call your friends, go out and have a couple of beers. Sometimes, while working our asses out for a new Mercedes-Benz, or a new job position, we let life go by. And we keep doing it until life decides to slap us in the face, either with a disease, or a special needs child, or whatever it takes for us to wake up.

Since we’ve been talking about advertising, I leave you with another commercial (subtitled in English), also from Coca-Cola, also created in Spain, in which there is a beautiful message about the point I’m trying to make. Certainly the character in the commercial also wishes that Wednesdays turn into Sundays. At 102 years-old, he definitely knows that life is way too short to be wasted inside an office. I truly recommend you watch it. Have a nice week.


Tradução: Mariana Casals

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Aos brothers - To the brothers

Apesar de acreditar que parte predominante dos leitores dos meus textos seja composta por mães, avós e outras mulheres que, por alguma razão, pessoal ou não, decidiram acompanhar a minha trajetória com o Antonio, tenho a impressão de que alguns marmanjos também pisam por estas bandas de vez em quando.

Ainda bem. Não tenho o talento do Chico Buarque para mantê-las eternamente anestesiadas, seja com minhas letras, seja com meus olhos não-azuis, e estaria em extrema desvantagem quando, por acidente, escrevesse algo que desagradasse o público feminino.

Por isso, as linhas a seguir são dedicadas a indivíduos desavisados como eu que, apesar da barba arranhar feito lixa, fazem questão de beijar seus rebentos até quase sufocá-los. Homens de fibra, que encaram fraldas recheadas de número 1 e número 2 sem fraquejar. Pais que entendem que seu papel é maior do que trocar as lâmpadas e matar as baratas, e se mantêm firmes, mesmo quando dá vontade de jogar tudo para o alto e sair para encher a cara. Sei que ainda somos minoria, mas nosso exército há de triunfar.

Longe de mim querer incentivar hábitos revolucionários, questionar tradições que dão certo há milênios ou ameaçar o lugar das mães no topo do pedestal (com as avós nas duas vagas imediatamente ao lado). Há alguns anos assisti um filme em que Robert de Niro vestia um peito de borracha para amamentar o neto. Engraçado, mas absolutamente repugnante. Tem coisas que nem Vito Corleone pode. E olha que respeito Vito Corleone como um pai. Ou melhor, como um padrinho.

Entretanto, como bem definiu Jorge Furtado no filme Ilha das Flores, acredito que qualquer ser bípede com tele-encéfalo desenvolvido e polegar opositor, mesmo que do sexo masculino, seja plenamente capaz de aprender a misturar água com leite em pó ou passar Hipoglós na sua cria. Não acredito em divisão igual de tarefas, tem horas que a mãe é insubstituível, mas dar uma mão é algo que estou disposto a fazer.

Antes que alguns comecem a me jogar tomates, quero fazer uma observação importante. É claro nós homens podemos muito bem nos isentar de algumas tarefas domésticas, se assim o desejarmos. Eu, por exemplo, resisto bravamente à pia de louças sujas, sendo capaz de conviver pacificamente com eventuais cucarachas e colônias de fungos. Porém, o Ministério da Saúde adverte que isso seja combinado previamente com sua digníssima mulher, logo após você notar – e elogiar – o seu novo corte de cabelo, e certifique-se de acertar as condições nos mínimos detalhes. É importante ressaltar também que o preço será sempre absurdamente injusto e que a sua dívida só poderá ser quitada em moedas nobres, como Euro ou ouro.

Caso você opte por pegar um financiamento no banco apenas para não ter que limpar eventuais excreções do seu herdeiro, entendo perfeitamente. Mas antes de tomar decisões drásticas, pense que algum dia sua mulher não estará em casa e que, sem mais nem menos, o seu filho começará a berrar como uma sirene e a jorrar lágrimas, seja por fome, frio, dor ou outras 500 possibilidades, e que o fim daquele martírio – para o bebê, para os vizinhos e para você – depende exclusivamente das suas habilidades. Não adianta chorar junto. A batata está com você.

É por isso que sempre digo que cuidar de criança é como nadar ou andar de bicicleta: melhor aprender logo. Não dói, não tira pedaço e em pouco tempo o seu filho começa a entender que você não é o entregador de pizza ou o porteiro do prédio. E aí, meu amigo, quando você é pego de surpresa pelo primeiro sorriso banguela, é nocaute na certa. Você não vê nada em volta, não escuta nada em volta e não consegue mais sair dali.

Para terminar, peço licença mais uma vez às persistentes mulheres que continuam lendo até este ponto, mesmo tendo sido levemente colocadas para escanteio lá em cima. É que tenho uma outra questão para resolver apenas com os integrantes do Clube do Bolinha. Uma pergunta importantíssima que quero fazer aos meus amigos, e que venho adiando desde que o Antonio nasceu: e aí, vagabundos, alguém topa jogar um pôquer?



To the brothers

Even though I believe the majority of the readers of this blog are mothers, grandmothers and other women that, for any reason, personal or not, have decided to follow my journey with Antonio, I have the feeling that some dudes also come here once in a while.

Thanks God. I don’t have Chico Buarque’s talent to keep those women forever numb, either by my writing or my non-blue eyes, and I would be in extreme disadvantage when, by accident, I wrote something that made the female readers uneasy. PS: Chico Buarque is a very popular brazilian singer, admired by men, truly loved by ladies.

For that reason, the following lines are for those unaware individuals like myself, who although the beard sticks like sand, make sure to kiss their kids until almost smothering them. Men of fiber, who face diapers full of number 1 and number 2 without flinching. Fathers who understand their role is bigger than just changing the light bulbs and killing cockroaches, men who stick to it, even when they want to give up and go out for a drink. I know guys like us are the minority, but I'm sure our army will triumph someday.

Don't get me wrong. I do not want to encourage revolutionary habits, or question traditions that have been working for millenniums, or threaten the place of the mothers on the top of the sanctuary (right beside grandmothers, placed in the two spots available on the sides). Some years ago I saw a movie in which Robert de Niro dressed a rubber breast-like braw to breastfeed his grandson. The scene was funny, but absolutely repugnant. There are things that not even Vito Corleone can do. And believe me, I respect Vito Corleone like a father. Or better, as a godfather.

However, like Jorge Furtado best defined in the movie Ilha das Flores (Island of Flowers, a brazilian documentary) I believe that any "bipedal with a highly developed tele-encephalic and with opposable thumbs", even being a man, is fully capable of learning how to mix water and baby formula or spreading diaper rash cream on his child. I don’t believe in equal division of the tasks, sometimes you really can’t replace the mother, but giving a hand to my wife is something I will always be willing to do.

Before every guy reading this start booing and throwing tomatoes at me, I must make an observation. Of course men can withdraw from housekeeping tasks, if so we wish. Since marriage, I myself have been resisting bravely to a sink with dirty dishes, being able to live peacefully with eventual roaches and colony of fungi on the pile. However, the Ministry of Health alerts that these exceptions should be previously arranged with your lovely wife, soon after you take notice – and cumpliment – her new hairstyle, and make sure you nail every little detail of the deal. It’s also important to remind you that the price will always be extremely unfair and that your debt can only be finished in noble money, such as tickets to Europe or gold jewelry.

In case you opt for a bank loan only so that you don’t have to clean a dirty diaper, I tottaly understand. But, before making drastic decisions, bear in mind that one given day your wife won’t be home and that, without any notice, your baby will start kicking and screaming, either by thirst, hunger, pain or other 500 possibilities and, to end the pain – the baby’s, your neighbors’ and yours – you will depend exclusively on your skills. It won’t work to cry along. The mission is yours.

That’s why I say that taking care of a child is like swimming or riding a bike: the sooner you learn the better. It doesn’t hurt, it doesn’t bite and soon enough your child starts understanding that you are not the pizza delivery guy or the doorman. And then, my friend, when your baby's toothless smile finally hits you for the first time, it's a knockout. You can’t see anything around you, you can’t hear anything else, you can’t even move.

To finish up, I must excuse myself once again to the brave women that have been reading until now, even though they were put a little aside up there in the first paragraph. I'm sorry, girls, but I have another issue to discuss only with the boys. It's an important question that I want to make to my friends, but I have been postponing ever since Antonio was born: hey, fellas, anyone up for some poker?


Tradução: Mariana Casals

terça-feira, 18 de outubro de 2011

What you really come here for

Assistindo Patati Patatá com o primo e o pai. (Watching cartoons with cousin and dad.)




Ilha deserta - Desert island

Passam os séculos e a questão filosófica preferida das crianças de 8 a 80 anos continua a mesma: o que você levaria para uma ilha deserta, se pudesse escolher apenas um item? Eu confesso que ficaria extremamente tentado a carregar um enorme pudim de leite, com furinhos e calda de caramelo, para morrer feliz na areia, de sede ou de hiperglicemia, mas com minhas lombrigas, fiéis companheiras, extasiadas de felicidade no seu momento final.

Porém, uma vez superado o ímpeto da gula, e pensando em ter alguma chance de sobrevivência, certamente acabaria optando por um computador, com 2 horas de bateria e alguma conexão wi-fi decente (na minha ilha deserta é possível pegar a internet de alguma outra ilhota caribenha ali por perto).

Imagino que o seu espírito crítico, incauto, já esteja vociferando dentro da sua cabeça. Não vale! Ele escolheu três coisas! E além de tudo é burro. Seria muito mais proveitoso levar um maçarico, um jogo de facas Ginsu ou qualquer spray que mate tarântulas gigantes, formigas assassinas e outros monstros do gênero.


Antes que você discuta demais – e se arrependa – pense comigo. Duas horas de internet são suficientes para mudar o mundo. Imagine se Napoleão pudesse consultar o site do Weather Channel, por exemplo. Certamente cancelaria a sua vergonhosa investida em território russo, e evitaria que seus soldados morressem congelados a -30º C, ou que passassem para o outro mundo feito espetinhos de gente, assados nas fogueiras feitas para fugir o frio.

O meu mundo, pelo menos, a rede já mudou. Quando minha mulher e eu recebemos o diagnóstico da síndrome do Antonio – uma deleção 6q, uma parte faltando no braço longo do seu cromossomo 6 – sabíamos que era algo raro, mas não imaginávamos o quanto. Nas primeiras buscas só vinham informações difusas, muito científicas e nada concretas. A única luz que avistamos foi o blog de uma mãe, também náufraga naquele mar de dúvidas, a buscar outras famílias convivendo com deleções 6q.

A autora do blog, mãe de uma linda menina que também tem uma deleção 6q, foi a nossa bóia de salvação. Ela já tinha encontrado outra família com uma situação parecida, já tinha contato com uma organização no Reino Unido, especializada em distúrbios raros dos cromossomos, e nos entregou de mão beijada, muito antes de qualquer médico, o primeiro lote de informações confiáveis sobre o nosso Antonio.

Logo em seguida, por meio da ONG inglesa, entramos também para um grupo do Facebook, onde mais cerca de 180 pessoas compartilhavam da nossa situação. Poucos dias antes isso era impensável para mim e para a Ana. Nossos médicos daqui falavam em pouco mais de 30 casos relatados e menos de 100 casos conhecidos. Em toda a literatura médica mundial.

Em suma, hoje temos contato com 3 famílias no Brasil e mais um punhado mundo afora, todos muito solícitos em prestar informações, dividir experiências e nos ajudar a ajudar o nosso filho a ter a melhor qualidade de vida possível. Graças à internet, e não aos médicos, tínhamos conseguido o alento de que tanto precisávamos. Descobrimos que não estávamos sozinhos.

Por isso, numa ilha deserta, onde se pode enlouquecer de solidão muito antes de morrer de fome, não tenho dúvida de que levo o meu notebook. Naquelas duas horas de bateria deixaria pedidos de socorro em todas as redes sociais, postaria fotos da ilha, dividiria tudo o que eu soubesse daquele lugar. Sei que cedo ou tarde, alguma boa alma virtual me encontraria e, no mínimo, começaria uma campanha online para me resgatar.

Por via das dúvidas, já me adianto no pedido. Se um dia você estiver em um daqueles cruzeiros com show do Roberto Carlos, deleitando-se com camarões e lagostas no buffet, lembre de também dar uma olhadinha para o oceano de vez em quando. E se por acaso avistar um maluco numa ilha, digitando desesperadamente, envie um daqueles botes salva-vidas. Por favor, faça isso por mim. Especialmente se tiver pudim de leite a bordo.


Desert island

Centuries come and go and the philosophical question of children between 8 and 80 remains the same: what would you take to a desert island, if you could choose just one item? I confess I would be extremely tempted to take a huge milk pudding, with little holes and caramel sauce, so I could die happy on the sand, either from thirst or hyperglycemia, but with my worms, my faithful companions, ecstatic from happiness in their final moments.

However, after surpassing the impetus of gluttony, and thinking I might stand a chance of surviving, I would certainly opt for a computer, with 2 hours of battery and some decent Wi-Fi connection (my desert island can access wireless internet from another Caribbean island nearby).

I can imagine your critical spirit is already crying out loud. It doesn’t count! He chose three things! Besides everything else, he is stupid. It would be much more reasonable to take a blowtorch, a set of Ginsu knives or any spray that kills gigantic spiders, assassin ants and other creatures of that sort.

Before you argue too much – and regret it – think with me. Two hours of internet connection is enough to change the world. Imagine if Napoleon could consult the Weather Channel, for example. Certainly he would cancel his shameful assault to the Russian territory and prevent his soldiers from freezing to death under a -30ºC temperature, or that they passed over as sticks of people, roasted in the fires to escape the cold.

In my world, at least, the web has made a huge change. When my wife and I received the diagnosis of Antonio’s syndrome – a 6q deletion, a part of the long arm of his chromosome 6 deleted – we knew it was rare, but we didn’t imagine how much. The first researches we only found diffuse information, too scientific, not so concrete. The only light we saw was the blog of a mother, also a castaway of that sea of doubts, searching other families also living with 6q deletion.

The author of the blog, the mother of a beautiful young girl also with 6q deletion, was our float of salvation. She had found another family with similar story, she had contacted an organization in the UK specialized in rare chromosome disorders, and gave in the information, way before any doctor, the first round of reliable information about our Antonio.

Soon after that, through the UK NGO, we joined a Facebook group, where around 180 people shared our situation. Just a few days before that it was unimaginable both for me and Ana. Our doctors here mentioned just a little over 30 reported cases and less than 100 known cases. In all the world’s medical literature.

In a nutshell, today we are in contact with 3 families in Brazil and some more overseas, all very amicable giving information, sharing experiences and helping us help our son to have the best quality of life available. Thanks to the internet, not to the doctors, we had the comfort we needed. We found out we were not alone.

So, in a desert island, where you can go crazy by loneliness way before dying of hunger, I have no doubt I would take my notebook. In those two hours that the battery works, I would leave messages asking for help in all social media, I would upload pictures of the island, share all I knew about the place. I know sooner or later, some good virtual soul would find me and, at least, start an online campaign to rescue me.

To be on the safe side, I make a request in advance. If you are ever in one of those Roberto Carlos’s cruises (Brazilian singer), eating lobster and shrimp in the buffet, remember to check the ocean once in a while. And if by any chance you see a crazy person in an island typing desperately, throw him a lifeboat. Please, do it for me. Especially if there is milk pudding on board.


Tradução: Mariana Casals

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Vale a pena ler de novo - It’s worth re-reading

Voltar a escrever é como voltar a malhar. Tem que ir com calma, sem pegar muito pesado, senão os dedos e a cabeça fora de forma começam a reclamar. Por isso, pra não fazer feio, resgatei um textículo - com x, não com s - antigo e resolvi postar. Perdoem meus dedos gordos, que até ontem serviam apenas para resgatar os últimos resquícios de doce de leite do fundo do pote. Perdoem o cheiro de mofo do post. O texto pode estar velhinho. Mas há baús que sempre valem a pena revirar.

Felicidade - escrito em 14 de maio de 2010

Eu acredito que a felicidade seja como surfar. E isso é uma mera suposição, porque eu, pessoalmente, nunca subi numa prancha na minha vida. Mas mesmo sem a experiência, é fácil imaginar a sensação de surfar. Uma sensação de algo breve, algo bom, mas com data e hora para acabar.

Em minha vida pessoal, lembro poucas vezes de ter parado um instante e me dado conta de que, naquele momento, eu era plenamente feliz. Tive um momento desses há uns anos, época da faculdade, morando em São Paulo, cheio de amigos e realizando muitos sonhos ao mesmo tempo: independência, trabalhar em uma grande agência de propaganda, viver numa cidade cosmopolita.

A segunda vez que me lembro ocorreu há menos de um mês, quando tive novamente a sensação de estar plenamente feliz, devido a uma importante mudança de emprego. Porém, esses momentos de lucidez são raros para todos nós. Geralmente percebemos o quanto éramos felizes apenas quando caímos de nossa prancha imaginária e nos sentimos literalmente afogados por uma nova e desconfortável situação.

Porém isso não deve nos impedir de buscar a felicidade. Talvez seja esse o grande encanto desse sentimento tão desejado: a efemeridade. E assim como os surfistas acordam cedo, viajam milhares de quilômetros e encaram o mar gelado para pegar uma onda perfeita, nós temos que estar dispostos a enfrentar alguns desafios para desfrutar de alguns segundos de felicidade.

A cada nova queda da prancha, cada vez que a felicidade nos escapar pelas mãos como água, cabe-nos apenas respirar fundo e começar a nadar novamente para o fundo do mar, à espera de uma nova onda boa. Ela pode vir por meio de uma nova amizade, de um novo amor, de um novo emprego, de uma viagem ou em algo simples, como aprender a cozinhar. Seja paciente. Para quem está disposto a ser feliz, a onda virá.



It’s worth re-reading 

Going back to writing again is like going back to the gym. You have to take it easy, without a sweat, otherwise the fingers and the head start complaining. For that reason and so I don’t look bad, I gathered this old little text to post it here. Forgive my fat fingers, that until yesterday were only good to gather the rest of sweet at the end of the jar. Forgive the odor of mold in this post. It might be old, but there are drawers which are worth taking another look at.

Happiness – written on 14 May 2010

I believe happiness is like surfing. That’s a mere supposition, because I personally have never been on a board all my life. But even without the experience, it’s easy to imagine the its feeling. A thrill of something brief, but with an expiration date.

In my personal life, I remember a few times having stopped to see that, in that moment, I was completely happy. I had one of those moments a few years ago, in college, living in São Paulo, full of friends and fulfilling lots of dreams all at the same time: independency, working in a big advertising agency, living in a cosmopolitan city.

The second time I remember doing that was a while ago, due to a change of jobs. However, this moments of lucidity are rare for us all. We usually notice how happy we were just when we fall out of our imaginary boards and drown from a new or unconfortable situation.

Still, this can’t prevent us from persuing happiness. Maybe that is the great charm of this so desired feeling: frailty. And so, like the surfers who wake up early, travel thousands of miles and face the cold ocean to catch the perfect wave, we have to be ready to face a few challenges to enjoy some seconds of happiness.

Each fall from the board, every time happiness escapes through our hands like drops of water, we have to take a deep breath and start swimming again towards the ocean, waiting for a new good wave. It might come through a new friendship, a new love, a new job, a trip or something simple, as learning how to cook. Be patient. For those willing to be happy, the wave will come.

Tradução: Mariana Casals

Bon Jovi e Men in Black - Bon Jovi and Men in Black


A paternidade, além de acentuar a minha calvície e as minhas olheiras de maneira incorrigível, tem me causado outro grave efeito colateral: uma total inaptidão para ir à balada.

Claro que contribuem também o avanço da idade – infelizmente acompanhado pelo avanço da circunferência abdominal – e o leve aroma de naftalina das minhas roupas de sair, que fariam os seguidores de Fiuk nausearem, não tanto pelo cheiro, mas pelo fato da minha calça não estar colada à vácuo nas minhas pernas e por eu manter o abominável hábito de usá-la na altura da cintura.

Modas e estilo à parte, o fato é que sair de casa após às 22 horas tem se tornado progressivamente constrangedor. E apesar de estar interessadíssimo no Globo Repórter e na maciez quentinha do meu sofá, na última sexta-feira resolvi me arriscar e prestigiar o aniversário da minha irmã caçula num pub da cidade.

Por aniversário da irmã caçula entendam: uma lista de convidados extensa, quase 100% mais nova e mais bela que você, e que ainda é capaz de dançar sem parecer ter sido expelido de uma máquina do tempo, vindo de 1994, ou antes.

Já na fila da entrada sinto os primeiros efeitos do meu, digamos assim, perfil inadequado. A minha esposa, que ainda está longe de perder o tônus da cútis e a etiqueta noturna, se aproxima da antipática moça na entrada e naturalmente responde nome, telefone, CPF, endereço, religião, cor favorita e etc. Ela pega seu cartão de consumação e entra sorridente quando o segurança – ou seria um agente saído do filme Men in Black? – abre a porta do recinto.

Eu, prudentemente, sigo logo atrás, imitando cada gesto para ninguém notar que não saio há 8 meses (tá bom, tá bom, 8 anos). Mal começo a olhar para o interior do bar quando sinto uma mão no ombro me puxando para trás. Era o agente Men in Black, com seu olho clínico para ET’s, acertadamente impedindo que um espécime estranho como eu frequentasse aquele lugar.

Sentindo os prováveis cinco quilos de mão no ombro, obedeço, com meu rabo de ET entre as pernas, ao convite seco de me retirar e passar pelo interrogatório de nome, telefone, CPF, planeta, hábitos alimentares e etc, antes de entrar novamente.

Ainda levemente trêmulo, dirijo-me ao balcão e peço uma cerveja. Álcool é a saída mais fácil para os peixes fora d`água. Rapidamente você está mais relaxado, mais à vontade e percebendo que não é tão diferente assim. Alguns desavisados chegam até a puxar papo com a loira monumental que está tomando um drink rosa, de canudinho, ao seu lado no bar. Eu não. Tenho meus pés no chão. E minha esposa a passos de distância.

Tomo uma, tomo duas (o copo era grande) e logo já estou me sentindo em casa. A língua levemente dormente e o olho já querendo baixar, mas o lugar estava escuro e barulhento, ninguém iria notar. E quando a banda começa a tocar Livin` on a Prayer, do Bon Jovi, constatei: conheço a música, logo, posso dançar.

Ledo engano. Até porque é impossível se mexer no espaço de dez centímetros quadrados que consegui com muito esforço abrir na pista de dança. Estava me sentindo no meio de um monte de sardinhas enlatadas ainda vivas. Apesar do apertume, todos estavam felizes, sorridentes, inclusive minha mulher, que estava logo atrás de mim, tomando espumante de canudinho e gargalhando com uma amiga.

Enquanto o pessoal abria a boca para cantar o refrão aos berros, eu só abria a minha para bocejar. E pensava se o Globo Repórter já tinha acabado. E se meu filho estava bem na casa da minha mãe. Nada contra o lugar, ou à música, ou aos convidados. Estavam todos ótimos, juro. O problema era eu.

É que com a paternidade nasceu também um prazer indescritível de ficar no meu canto, com a minha família. É algo mais forte do que a gente, quem já tem filho entende o que eu estou querendo dizer. E lugares como aquele, que antes eram a tradução literal da diversão, se transformam apenas em uma memória saudosa de um tempo que já se foi.

Quando cheguei na casa de minha mãe e ouvi o barulho ronco e morno da respiração do Antonio no berço, senti uma paz. Fiquei uns dez minutos na porta, hipnotizado por aquele pingo de gente. E apesar de já ser quase 3 da manhã, no tempo em que estava ali, não bocejei nenhuma vez.


Bon Jovi and Men in Black

Parenthood, besides enhancing my baldness and the dark circles around my eyes incorrigibly, has brought me another serious side effect: a complete inaptitude for the night outs.

Of course the advancement of the age – unfortunately followed by the enlargement of my waist circumference – and a slight odor of moth balls on my trendy clothes, which would make Fiuk’s fans nauseate, not so much for the smell, but by the fact that my paints aren’t vacuum packed to my tights and because I have the nasty habit of wearing my paints in my waist line.

Fashions and style on the side, the fact is leaving the house after 10 o’clock p.m. has become progressively embarrassing. Though I’m super interested in Globo Repórter and in the warm softness of couch, last Friday I decided to take a risk and go to my little sister’s birthday in a pub downtown.

By my little sister’s birthday I mean an extensive guest list, almost 100% younger and more attractive than you are, and that still can dance without appearing to having been dislodged by a time machine, coming from 1994 or before.

In the entrance line I already eel the first effects from my, let’s say, inadequate profile. My wife, who is still far from losing the tone of the skin and the night etiquette, approaches the obnoxious door-host lady and naturally informs her name, telephone, id number, address, religion, favorite color and so on. She grabs her consumption card and enters smilingly while the bouncer – or an agent from the movie Men in Black maybe? – opened the door for her.

I, wisely, follow behind, imitating every gesture so nobody notices I haven’t been out for 8 months (ok, ok, 8 years). I barely look inside when I feel a hand on my shoulder pulling me back. It was the Men in Black agent, with his clinical eye for ETs, rightly preventing a strange specimen to enter such a place.

Feeling what had to be some five kilos of hand pressure on my shoulder, I mind, with my alien tail between my legs, the dry invitation to turn away and go through the interrogation of name, telephone, id number, planet, eating habits and so on before being allowed to enter.

Still trembling, I go to the counter and ask for a beer. Alcohol is the easiest way for those feeling like a fish out of the water. Quickly you feel relaxed, at ease and even part of the gang. Some become so unaware they flirt with the gorgeous blond woman by the counter drinking a pink cocktail with a straw. I’m not one of those. I keep both feet on the ground. And my wife at close distance.

I have one, two (the glass was big) and I already feel at home. The tongue is slightly numb and the eyes begin to close a bit, but the place was dark and noisy and nobody would take notice. When the band starts playing Bon Jovi’s Livin’ on a Prayer I thought ‘hey, I know this one, I can dance to it’.

I was wrong. First it’s sort of impossible to move within ten centimeters I scarcely conquered in the dance floor. It felt like live canned sardines. Even so, everyone was happy, smiley, including my wife, who was just behind me, having some sparkling wine with a straw and laughing with a friend.

While everybody cheerfully sang the chorus really loud, I just opened my mouth to yawn. I was wondering if Globo Repórter (TV show such as 60 Minutes) was over, if my son was all right in my mother’s house. Nothing against the place, the music nor the guests. Everyone was fine, I swear. I was the problem.

The thing is parenthood also brought an indescribable pleasure for staying in, with my family. It’s stronger than us, those who have children understand what I’m trying to say. Places like that, that used to be the literal translation of fun, become just a nostalgic memory of a time that is gone.

When I got to my mother’s house and heard the snoring and the warm breath of Antonio in the cradle, I felt peace. I stood in the door for 10 minutes, hypnotized by that small adoring person. Even though it was 3 a.m., during the time I stood there, I didn’t yawn a single time.


Tradução: Mariana Casals