segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Meu elefante

A Terra ainda era uma sopa quente e nutritiva de bactérias quando, por alguma razão, uma ameba decidiu que preferia ficar na caverna, cuidando das amebinhas recém-nascidas e assistindo comédias românticas na televisão, enquanto a outra ameba, com fome e entediada, resolveu que era melhor sair para caçar – porém, no caminho, achou por bem parar no bar para fumar um cigarro, jogar uma sinuca e tomar umas cervejas com alguns protozoários e platelmintos que se divertiam por lá. 

Pronto. Estava declarada a guerra dos sexos. Em algum momento da história do planeta, a vida se dividiu em dois times: machos e fêmeas. Não sei se por pré-determinação genética ou pela convivência, ambos os grupos foram logo adquirindo hábitos típicos, como não levantar a tampa da privada pra urinar, no caso deles, e ter uma atração doentia por bolsas e sapatos, no caso delas. Rapidamente, até seres unicelulares acéfalos tornaram-se capazes de facilmente separar homens para um lado e mulheres para o outro.

Pausa para uma reflexão contemporânea. É claro que vivemos em tempo de diversidade sexual. Entendo e concordo que os estereótipos do que é masculino e feminino não poderiam estar mais fora de moda. Entre uma ponta e outra existem umas duzentas novas classificações, todas igualmente válidas. Porém, mesmo em uma era em que o ser humano começa a admitir a sua complexidade e a absorver a existência de fenômenos como a trans-sexualidade, por exemplo, é preciso aceitar que a diferença de gênero ainda é uma forma prática de subdividir as pessoas. E que, independentemente da orientação sexual e com a certeza de haver exceções, o fato de nascer menino ou menina ainda tem uma influência determinante em nossos hábitos comportamentais.

Feita esta observação, seguimos adiante. O ponto é que nós, homens, somos plenamente capazes de ignorar a programação de todos os Telecines, todas as HBO’s, todas as novelas, todas as séries e, no meu caso, até dos canais de esportes. Porém, existem dois tipos de canal que miram a audiência masculina e nos capturam como se fôssemos presas fáceis. Dois tipos de programa que sempre terão a capacidade de interromper as nossas zapeadas, mesmo que o conteúdo seja absurdamente ruim. Podem confiar, falo por experiência própria. Se algum dia você vir um sujeito apertando o controle remoto sem interesse, até que, de repente, algo na tela chama atenção e acorda o dito cujo daquele estado letárgico, pode ter certeza: ou é filme pornô, ou é um documentário no estilo National Geographic.

A explicação é simples. Se pararmos para pensar, existe uma relação bastante próxima entre as duas categorias de entretenimento, é natural que o público seja o mesmo. Tem cenas do pornô em que a atriz mais parece uma zebra sendo devorada. Títulos como Vida Selvagem e Boca Mortal servem tanto para filmes sobre ninfomaníacas famintas quanto para documentários sobre leões e guepardos. Os feromônios à flor da pele, o instinto animal, os acasalamentos sem amor: está tudo lá. Mudam apenas os animais.

Mas deixemos a pornografia para a mesa de bar. Para a infelicidade de alguns, a partir daqui o texto segue mais a trilha de elefantes africanos do que de coelhinhas tchecas. Não é pudor, garanto. É que minha zapeada nesta semana parou justamente em um filme sobre a migração de um imenso grupo de paquidermes em busca de água.

A história se tratava da influência do sol na vida terrestre de um pólo ao outro. Em algum lugar no meio da África, um grupo de elefantes atravessava um deserto, por semanas, sem enxergar nada por causa das tempestades de areia, sem parar para comer ou descansar. Na verdade, era uma questão de sobrevivência. No meio da secura, tinham de chegar aonde havia água e vida o mais rápido possível. Não havia chances para quem ficasse para trás.

Foi neste momento que o documentário me pegou. Um elefante jovem se perdeu do grupo e, mesmo cego pela areia nos olhos, conseguiu reencontrar a trilha dos seus familiares. O problema é que o filhote, inexperiente, seguiu o caminho na direção contrária. Do alto, com uma visão completa do deserto, dava para ver a triste cena do elefante, em meio às nuvens de poeira, se afastando dos mais velhos – e da possibilidade de sobreviver ­ – cada vez mais.

Não houve final feliz. A narrativa passou para as técnicas de caça em equipe de uma matilha de cachorros selvagens e deixou o destino do elefante subentendido. Melhor assim, sem pieguice, mostrando toda a imparcialidade das leis da natureza. Você pode ser gentil, você pode ser inteligente, você pode ser o melhor exemplo da espécie, nada o livra da possibilidade quase aleatória de antecipar o destino natural de tudo o que é vivo: morrer.

Fiquei intrigado com qual teria sido a reação da mãe daquele elefante, curiosidade que o documentário não saciou. Será que o cérebro desse animal, folcloricamente conhecido por sua boa memória, recorda do filho que desapareceu? Será que se ela tivesse visto seu pimpolho desgarrar, teria voltado para buscá-lo? Será que existe algum teor de humanidade neste que não só é um dos maiores, mas também um dos mais inteligentes animais? Quem a natureza prefere? O pai racional, que continua no grupo e encontra a água? Ou o pai governado pelo coração, que volta para o deserto e se arrisca a morrer de sede, porém junto com sua cria?

Meu filho Antonio, com sua falta de um pedaço em um dos cromossomos, descolou do grupo. Está claro que fará muito, mas não fará nada no tempo dos outros, não fará nada exatamente como os outros. Meu filho, literalmente, segue a própria trilha. Às vezes parece que está indo na direção contrária, às vezes parece que está andando em círculos, mas na verdade, só uma coisa é certa: assim como o elefantinho, ele – nossa família – está no meio de uma nuvem de poeira. Não é possível prever o próximo passo. Não sabemos onde estão as fontes d’água. Não sabemos quando poderemos beber.

Diferentemente da elefanta, voltei para buscar meu filhote. Entrei na tempestade de areia, tomei rajadas por todos os lados, achei por um momento que fosse me perder. Ainda estou meio confuso, confesso. Não sei direito o caminho para fora da nuvem de poeira. Mas pelo menos estou de mãos dadas com o meu filho. E sei, como quem fareja a umidade no ar, que vamos dar um jeito de sobreviver. Vamos inventar um novo jeito de viver.


48 comentários:

  1. Texto espetacular. O seu filhote vai fazer td no tempo dele, tenha certeza, td tem seu tempo certo e o dele tb chegará.

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  2. Fabinho, não resisto aos documentários desse gênero.

    Felizmente, evoluímos o bastante para que instinto de sobrevivência aja apenas em defesa da nossa vida e de nossa prole.

    Vocês são toda a água que o Antônio precisa.

    Abs!

    André

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  3. A VIDA NOS OFERECE SURPRESAS, AS VEZES NOS ASSUSTAMOS,MAS SEGUIMOS EM FRENTE SEMPRE NOS ALIMENTANDO DAS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E NOS CURANDO PELO CAMINHO. SINTA-SE DE MÃOS DADAS COM MUITOS PAIS, FLIZAN ÉS LITERALMENTE POÉTICO E INSPIRADOR.UM GRANDE ABRAÇO COM MUITO CARINHO PARA VOCES TRES.

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  4. Demais!!!!!
    Uma linda semana pra vcs, beijo, Ivana

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  5. Sonia, é verdade: ele seguirá o tempo dele. Cabe a mim, ansioso, me adaptar.

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  6. Liliane, que bom que comentou! Um beijão

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  7. Obrigado Ivana. Uma boa semana para você também. Bj

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  8. Venho aqui declarar que o animalzinho está errado!! Ontem pude comprovar que o Antonio é ursinho, e não elefantinho!! Ficamos apaixonadas por ele... e Nicolau sentiu falta de cheirar uma fralda hoje de manhã...

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  9. Terei que reescrever o post. Rs E fralda pra cheirar é o que não falta nesta casa. Logo combinamos um reencontro. Nicolau já comeu todo o osso?

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  10. Lógico!!! Não sossegou enquanto não terminou!! <3

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  11. Caro Fábio,

    Lindo o texto. Poético.
    Ainda não sei quem é mais privilegiado nós por termos uma criança especial para nos ensinar a conviver com a diferença ou eles por ter uma família que os ama e pode oferecer tratamentos e cuidados no sentido de integrá-los e superar a dificuldade.
    Abraços, boa semana.
    Maria

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  12. Oi Fabio! Sou mae da pequenina que nao conseguiu segurar o pesado bouquet de pirulito no casamento do tio Thiago com a tia Deia! Foram eles que me apresentaram o seu blog, e desde entao estou apaixonada pelos seus textos e pela sua familia! Precisamos marcar um encontro da Maria Fernanda com o Tom Tom! Um otimo ano para vcs e que Deus continue abencoando e iluminando o caminho e a vida de vcs!

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  13. Fábio, levante as mãos para o céu e agradeça à Deus por ter dissernimento, e um bom convênio médico para o seu filho. Mais do que nunca, agradeça por você e sua esposa terem a clareza de tudo o que acontece, para tentarem espanar a poeira.
    Fiquei pensando se fosse uma família de renda baixa, sem algum tipo de conhecimento para correr atrás, pesquisar, se informar, sem condições de buscar bons hospitais.
    O que seria do Antonio... teria se perdido do caminho igual o Elefantinho.
    Força.
    Andrea

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    1. Desculpe responder aqui, mas achei pertinente: Andrea, não discordo que a renda dos pais ajuda, e muito, no tratamento de uma criança especial. Mas não se pode dar ao dinheiro valor maior do que se tem. O ESSENCIAL aqui é o amor, paciência, resiliência e coragem de lutar dos pais. E isso não depende de contas bancárias, ou bons planos de saúde... Fabiola Weiss

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  14. Fábio, que lindo! Lindo, lindo lindo... não sei dizer outra koisa.

    Vc ainda não sabe ou ainda não se convenceu, mas o fato de ter voltado pra buscar teu filhote, fez ambos saírem da nuvem de poeira. Serão certezas e receios aquietados pelo tempo, na medida em que o Antonio for desbravando o deserto. E outros surgiráo, é verdade, mas essa é a graça da vida. O mais importante é que o caminho seja percorrido a três (ou em bando, porque eu tô com vcs e não abro)!

    Amo segundas-feiras... tu arrasas, guri!

    Beijo pra ti, pro Antonio e pra Ana.

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  15. Antônio, encontrei seu blog por indicação da karla e tenho que concordar om ela, maravilhoso!!! Acho que terá mais uma leitora...

    Bjusss

    Cybelle

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  16. Rejane Silene de Castro17 de janeiro de 2012 08:06

    Fábio, olá!
    Após ler seu texto, nesta bela manhã, fiquei toda arrepiada.
    Suas palavras flutuam perfeitamente entre elas e nos trazem inúmeras possibilidades de análises sobre nossas vidas.
    Amei seu texto! Parabéns!
    Assim como você acredito que também existem muitos pais que não irão deixar seus filhos para trás, isto é maravilhosamente perfeito.
    Feliz do Antônio por ter nascido num núcleo familiar apaixonante e disposto a enfrentar as tempestadesde areia que ainda virão.
    Forte abraço.

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  17. Que ótimo esse, Fábio!!!! Adoro documentários africanos tbm!!! Acho que agora descobrimos a quem o Dudu puxou.

    O bom é saber que o elefantinho Antonio sempre estará acompanhado por um de nós, mesmo que o papai ou a mamãe estejam ocupados para resgatá-lo, as titias, avós, primos e amigos estarão olhando por ele!!

    Beijo e boa semana.

    Beta.

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  18. Fabinho, lindeza de texto! Adoramos a visita do trio . Beijo grande

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  19. O amor que vence os medos, que impulciona e inspira para a esperança e a descoberta, se apresentou para voces com o nome de Antonio. Tua chave de portal.

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  20. Maria, somos nós os privilegiados. Certamente. Eles transformam a nossa vida só por existirem. bj

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  21. Carol, que bom que tem lido. Claro que temos que apresentar os pimpolhos. Numa próxima vinda sua a Brasília, sem falta. Um beijo

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  22. Andrea, li seu comentário quando estava indo dormir. Agradeci exatamenta ao que você lembrou: um bom plano, dissernimento, ter condições de ajudar o Tom. Depois refleti, sabe que as famílias simples às vezes acabam aceitando melhor a diferença do que as famílias em melhores condições econômicas? Não tenho como provar, mas é uma sensação que tenho tido depois que o Tom nasceu. Um bj

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  23. Ká, é muito bom tê-la em nosso bando. rs. Um grande beijo

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  24. Cybelle, não sei se você se referiu ao Antonio intencionalmente ou não, de qualquer forma, passei o recado para ele. E ele ficou MUITO feliz que você acessou o blog. rs. bjão. Te espero às segundas.

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  25. Rejane, quem tem família tem tudo. E isso o Antonio tem. Um bj

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  26. O Antonio seguindo a própria trilha, tb está mostrando aos papais que é preciso mudar. Nessa trilha, ele vai na frente e vcs apenas tem que seguir os passinhos dele. Não precisam correr!!!

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  27. Beta, são vocês que sempre nos resgatam: família e amigos. Um beijo

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  28. Ana, que bom que gostou. Também adoramos a visita. Ontem mandei ver no doce de leite. bj

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  29. Ariane e Sid, um filho é a chave sim. Para um novo mundo. E para um novo sentido de vida.

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  30. Cléo, você tem razão. Ele que está ditando o caminho. E está sendo muito bom.

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  31. Fa, com certeza vocês encontrarão seu próprio caminho para fora da nuvem obscura. Não esqueça nunca que nesse percurso vocês irão se deparar com amigos, familiares e profissionais que disponibilzarão óculos de proteção contra poeira, prognósticos meteorológicos e prescrições de bússolas que os direcionará para grandes fontes de águas límpidas... Beijos, Ca.

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  32. Fábio,impressionante como teus textos sempre me emocionam.Belo texto como sempre.
    Abraços para você,ah é no Antônio também!

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  33. Se a gente parar pra pensar, cada um sempre faz as coisas no seu próprio tempo (eu só entendi Física depois de dois anos de cursinho, quando eu deveria ter entendido no segundo grau... rs). O que importa é que a gente tenha liberdade pra ter nosso próprio tempo, sem ser cobrado nem punido por isso. E não há dúvidas de que você(s) sabem bem respeitar o tempo do Antonio. Ele é um menino de sorte.

    Sobre os documentários, eu também gosto muito deles. E, em especial, sobre documentários sobre elefantes. Esses animais têm a estrutura familiar muito semelhante a nossa. Uma vez vi um documentário sobre um "reposicionamento espacial" que fizeram numa reserva na África, em que separaram alguns bebês elefantes das mães. Depois de um tempo, esses bebês separados começaram a se reunir e matar rinocerontes, por pura rebeldia (elefantes não comem rinocerontes). Isso aconteceu até eles serem reintegrados às famílias. É muito interessante perceber o tanto de bicho que nós temos.

    Beijão.

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  34. É assim que nascem as novas trilhas. Alguém já disse: fazemos o caminho, caminhando. Parabéns!!!

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  35. Cá, como você disse, tem muita gente nos ajudando sim. Um beijo

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  36. Caparroz, o Antonio está de facão na mão abrindo a dele. E o pai orgulhoso indo logo atrás. Abraço

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  37. Fala, bonito! Em um momento "estrógeno-HBO", justamente ontem, a Milu me puxou para o sofá e assistimos ao "Amor e Outras Drogas". Não sei se já viu, mas a síntese é incrivelmente a mesma do texto desta semana: ter, porém, não depender da esperança da reversão do problema de saúde para ser feliz. Belo texto, conexões, alegorias, comparações, como sempre! Ab do amigo e fã, DV

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  38. Não vi. Agora vou ver. Abraço meu velho.

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  39. Conheci teu sitelendo os comentários no blog do Carpinejar. Tenho gostado mt de ler teus textos. Te digo, com plena certeza, que não só teu filho, mas vc e tua esposa são especiais. Somente pessoas especiais recebem esses anjos lindos para cuidá-los, amá-los e dão uma vida maravilhosa pra eles! Teu filho é lindo! E ele é uma criança normal. A única diferença é que ele tem o tempo dele! Cada um de nós tem suas características individuais. E ele tem as dele. Fiquei mt admirada e feliz pelo modo em que vc e sua esposa tratam do assunto. É isso aí, vivendo cada dia de uma vez e curtindo todos os momentos de evolução é vitório. Esse lind Garoto só trará alegrias, tenham certeza disso! Um abraço fraterno à vcs, Papais!

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  40. Juli, muito obrigado. Ele tem nos feito crescer e ver a vida com olhos diferentes. Só isso já vale qualquer esforço. E quando ele conquista algo novo, é como se conquistássemos também. Uma alegria imensa.
    Que bom que acesssou e comentou. Espero que volte sempre.

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  41. Irretocável- o texto e o seu amor de pai
    Fabiola Weiss

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  42. Obrigado, Fabíola. E sim, o essencial é o amor. Quando levamos o Antonio a algum serviço público de saúde (usamos bastante, por várias razões), acabamos vendo famílias de todas as classes enfrentando as situações com seus bebês. O que diferencia uma das outras não é a condição econômica, mas sim a aceitação. Um bj

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