terça-feira, 19 de março de 2013

Rainha das invenções


Qualquer mente com as sinapses em ordem, ao refletir sobre a evolução tecnológica do mundo, rapidamente chega à conclusão de que a preguiça é a maior inventora de todos os tempos. Foi a preguiça de andar quem inventou a roda. Foi a preguiça de subir degraus quem inventou o elevador. Foi a preguiça de lavar panelas quem inventou o micro-ondas. E, apesar de alguns militares e estudantes ficarem com os créditos, foi a preguiça de encontrar as pessoas quem inventou a internet e esse fenômeno amorfo que recentemente tomou contas das nossas vidas: as redes sociais.

Afinal, convenhamos: relacionar-se no mundo real com outras pessoas dá muito trabalho. Tem que se vestir adequadamente, deslocar-se até o local combinado, chegar na hora marcada, cumprimentar com um, ou dois, ou três beijos, em alguns casos apenas com um aperto de mãos, em outros somente com um sinal da cabeça. Tem que rir quando alguém diz algo supostamente engraçado. Tem que ouvir as opiniões alheias, e mais, tem que fingir interesse. Não pode coçar praticamente nenhum lugar que coce no corpo, não pode limpar o nariz, não pode comer de boca aberta, nem dormir se o assunto está entediante. Manter uma vida social exige uma renúncia quase absoluta de tudo o que verdadeiramente somos, e que deixamos à mostra apenas quando estamos trancados em um lugar seguro, como a própria casa, ou o banheiro.

Ainda assim, mesmo sendo muito mais fácil fazer reuniões pela internet, com camisa de botões da cintura para cima, e cuecas samba-canção e meias sujas da cintura para baixo (e com a escova de dentes ainda intocada), nosso eu-social, ainda habituado a outros tempos, insiste em rever as pessoas mais íntimas de quando em quando, mais por nostalgia do que para colocar o papo em dia.

Mas para isso são precisos heróis da resistência. Eu mesmo estou há sessenta dias tentando organizar um pôquer com cinco camaradas na minha nova residência e acho que nunca antes fracassei com tanto êxito. É preciso admitir que nos primeiros meses minha casa não dispunha do aparato mínimo nem para uma rodada decente de jogo do palitinho, muito menos para o nosso tradicional, embora raro, Texas Hold’em: eu não tinha mesa. Porém, uma vez solucionada esta questão, meus amigos e eu nos deparamos com outro impeditivo comum da vida moderna, muito mais eficiente do que as antigas desculpas, como a distância ou a falta de dinheiro para sair: a incompatibilidade de agendas. Nas últimas semanas, já adiamos o jogo por causa de aniversários, de viagens para o exterior, de ter que participar de uma corrida de rua, de ter que trabalhar no final de semana e até por causa da abstinência etílica de um dos participantes, que voltaria a beber somente dali a alguns dias e, por isso, preferia deixar o carteado para o domingo seguinte. Não preciso nem mencionar que o tal participante já está completamente livre para entrar em coma alcoólico, se assim o desejar, mas o jogo de pôquer é o único que não consegue sair do lugar.

Encontrar com os amigos está pior do que marcar consulta em médico pelo plano de saúde. Daqui a pouco vamos ter que mandar um save the date com um mês de antecedência pra combinar um chope. E a operação não será simples. Tem que mandar mensagem por celular, por e-mail, postar em todas as redes sociais e ainda confirmar por telefone no dia. Apostar em apenas um meio de comunicação é muito arriscado. Vai que o amigo é da TIM. As chances são grandes de acabar sozinho na mesa do bar.

Entretanto, depois de superados todos os desafios, depois de estarmos todos sentados  numa mesa agradável, com uma cerveja gelada na mão e um full hand na outra, todo o esforço parece valer a pena. Voltamos às mesmas gargalhadas, ressuscitamos as antigas piadas, desenterramos os apelidos, repetimos as mesmas ofensas inofensivas e naquela catarse feliz, onde o bullying rola solto para todos os lados, prometemos a nós mesmos que precisamos repetir isso mais vezes, como nos velhos tempos. “Todas as quintas!” – sugere um. “Melhor na quarta.” – retruca outro. “No próximo sábado, ou domingo, sem falta.” – compromete-se a maioria.

Mas vem a semana, e o trabalho, e os filhos, e o supermercado, e o pneu furado, e o condomínio atrasado, e os compromissos, que passam como um rolo compressor por cima de qualquer alma mais entusiasmada, e quando finalmente chega o próximo sábado, ou domingo, a única que comparece ao encontro é a preguiça. Essa rainha das invenções, muito solícita, não se importa em criar uma desculpa diferente para cada um, todas rapidamente enviadas por mensagens de celular, e-mails e avisos de redes sociais – invenções de autoria dela também, é claro. “Quem sabe no fim de semana que vem?” – insiste um mais otimista. “Fechado!” – responde alguém, sem muito compromisso, sabendo que não será cobrado. Desligo a TV pelo controle remoto, a obra-prima da preguiça, e penso comigo mesmo: melhor assim, o dia está perfeito para dormir.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O segundo

Filho, 

Está chegando o seu segundo aniversário. Dia 6. E como eu fiz no primeiro ano, quero deixar um registro para você. Será que um dia você será capaz de ler? Será que um dia você conseguirá entender algo disso tudo, compreender ao menos um pouco do que escrevo? Não sei.

O que eu sei é que você – nossa família – está bem mais adiante do que imaginamos. E, ao mesmo tempo, bem atrás também. Não faz sentido, eu sei, mas é isso mesmo. A esperança nos puxa pra frente, a expectativa nos puxa para trás. A paciência nos faz andar, a ansiedade nos dá um tombo. É assim todos os dias, em todos os momentos com você. Na hora de comer, de brincar, de tentar ensinar algo de novo. Eu, sua mãe, o mundo, sempre querendo mais. E você exigindo calma. Impondo o seu ritmo. Decidindo por conta própria quando está pronto para aprender.

Sabe, meu filho, quando você ainda morava dentro da barriga da sua mãe, eu tinha uma imagem, uma cena, que sempre voltava à minha mente. Eu imaginava você com cerca dois anos entrando no meu quarto logo de manhã. Você tinha os cabelos encaracolados, claros, como foram os meus, e vinha andando só de fralda, camiseta e chupeta, com cara de sono, até a porta do quarto. Não sei por quê, sonhei de olhos abertos com essa cena muitas e muitas vezes. Você ali parado, em pé, coçando os olhos de sono, me chamado pra brincar.

Errei o palpite. Seu cabelo é mais escuro, mais curto, mais liso. Você não dá muita bola para chupeta, faz meses que não pega numa. Dorme de calças. Não acorda muito cedo. E, principalmente, não vem andando para o meu quarto. A verdade é que você é um imprevisto, meu filho. Uma surpresa. E como num filme muito bom, com viradas inesperadas, cortou da edição a minha cena clichê.

As imagens das nossas manhãs são outras. Às vezes, nos fins de semana, acordo mais tarde e encontro você ainda de pijamas no seu tatame da sala, explorando os seus brinquedos, geralmente com a língua, ou vendo TV. Quando chego perto, ganho um sorriso de olhos apertados e, na falta de um quimono para segurar, você me dá um agarrão na barba, às vezes complementado por uma babada em alguma área do rosto. Revido o golpe imediatamente. Ataco direto naquela área do pescoço logo abaixo da orelha, cafungando e fazendo cócegas, e você se encolhe dando risadas, puxando ainda mais a minha barba, mas resisto na minha posição, até vencer. É o nosso bom dia mais tradicional. Depois do embate, corro direto para a cafeteira. E você se volta novamente para o clipe infantil na televisão, concentrado mais na bolinha que pula por cima das letras do que nas imagens do vídeo.

Outra cena clássica é buscá-lo no berço, após ser avisado por seus grunhidos de que você está acordado. Encontro você sentado, as pernas esticadas, tentando manter o equilíbrio, um exercício difícil por si só em qualquer momento do dia, ainda mais com sono. Seu corpo ainda não aprendeu o tradicional gesto de pedir colo, meu filho. Você não estica os braços quando nos vê, porque ainda precisa deles apoiados para ficar sentado. Porém, como sempre, inventou seu jeito de se fazer entender. Quando chego perto, recebo o infalível sorriso e, rapidamente, você eleva os braços só até a altura dos ombros, com os cotovelos encolhidos, perdendo completamente o sustento que mantém o seu tronco em pé. Em outras palavras, se eu não pegá-lo, ou você cai pra frente, ou cai para trás. É como um jogo da confiança matinal. E você confia.

Mas a minha cena preferida é quando a sua mãe faz a gentileza de se levantar para buscá-lo no berço. Ela coloca você entre a gente na cama, pois às vezes o seu horário ainda é bastante cedo para adultos acima de dois anos. Sinto o seu corpo rolar até o meu, mas finjo que continuo dormindo. De olhos fechados, tomo um puxão na minha barba, um chute de calcanhar na barriga, seguido de outro nas costelas, outro ainda mais forte na barriga de novo e, em manhãs de azar, sou agraciado com um último chute nas partes baixas. Aguento firme. Por piedade, sua mãe puxa você para perto do corpo dela. Por algum tempo, você finge que desiste. Até que, de repente, tomo uma nova martelada de calcanhar, dessa vez no baço, ou no pâncreas, seguida por uma mão se enfiando no meu nariz, ou no ouvido, ou alguns dedos babados passando pelo meu rosto. Sei que não posso abrir os olhos, pois assim serei vencido. Sei que preciso aguentar em silêncio, senão será a minha derrota. Sofro mais uma coronhada de calcanhar na bacia. Outra na boca do estômago. E não consigo me segurar. Receio levar uma batida no rosto. Ou na nuca. Você está ficando incrivelmente forte. Melhor não arriscar. Então, após alguns minutos de inútil resistência, abro os olhos. Você arregala os seus e sorri – o seu golpe de mestre. Naquele instante, tenho a certeza de que fui rendido. Sei que terei que levantar e brincar, não importa que horas sejam. Lutei, mas perdi. Jogo a toalha. Não sem antes fazer uma boa dose de cócegas, pego você no colo e me encaminho para a sala. Coloco você no chão, ligo a TV e começo a distribuir os seus brinquedos em nossa volta. Ainda meio zonzo por causa do sono, deito numa almofada, assistindo você sacudir um chocalho, ou apertar um botão de um brinquedo com a cabeça, ou brincar com uma mola de caderno. E percebo que esta é exatamente a cena que eu sempre quis.

Obrigado por me acordar para a vida, meu filho.
Parabéns pelos seus 2 anos. Que seja um ano muito feliz. 

Papai


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Caça-palavras


Outro dia estava escrevendo um parágrafo sobre o brasileiro. E como se não tivesse um caminhão de coisas para fazer, fiquei algum tempo pensando que havia algo de errado com aquela palavra: brasileiro. O problema não são os nascidos no Brasil, longe disso. É o “eiro” que soava estranho. Porque, em português, quando se quer indicar a nacionalidade de uma pessoa, os sufixos mais comuns são “ano”, “eno”, “ino”, como em angolano, chileno, argentino. Há ainda o “ês”, de chinês; o “ão”, de afegão; o “ense”, de canadense”; e até o esquisito “ol”, de espanhol. Outros termos mais específicos, como belga, austríaco e paraguaio, também aparecem de vez em quando, porém com “eiro” até agora só encontrei sentidos que indicam um hábito ou estilo de vida. Na nossa língua, “eiro” é mais um jeito de ser do que um país de origem. José é pagodeiro. Miguel é baderneiro. Francisco é marinheiro. E sabe o Joaquim, aquele navegante boa vida, que passava anos deste lado do oceano enchendo o barco de pau-brasil, a pança de tapioca e a cama de índias? Era chamado de brasileiro.

Não sou sociólogo, nem historiador, mas minha cabeça é afeita a este tipo de devaneio. O peso das palavras. O que cada termo realmente quer dizer, e com qual intensidade. Esta é uma ciência negligenciada na correria do dia-a-dia e até invisível aos ouvidos menos atentos. Entretanto pode ser fatal no dizer, no sentir e principalmente no escrever.

Há algumas semanas, em um grande evento sobre os direitos das pessoas com deficiência, a presidente (este texto não permite o “denta”) Dilma Rousseff cometeu a gafe de pronunciar em seu discurso o obsoleto termo “portador” de deficiência. Recebeu em troca uma enorme vaia do público presente, a quem tentava – sem sucesso – transmitir o seu compromisso com a causa. Imagino o constrangimento da presidente e o desespero do assistente que redigiu o texto. E o pior: deve ter sido aquele desespero de quem não sabe qual foi o seu crime.

Para explicar de maneira didática, a palavra “portador” é mais indicada para quem está carregando algo portável, ou seja, algo que possa ser levado de um lado para o outro e que, pela lógica, possa deixar de ser portado em algum momento. Um policial pode portar uma arma durante o dia. E pode deixar de portá-la à noite. Um navio pode portar um avião em alto mar. E depois deixar de portá-lo, quando a aeronave decolar. Agora pense bem. Como uma pessoa pode portar uma deficiência, se no fim do dia ela não pode se desfazer desta característica? A deficiência, seja ela qual for, faz parte da pessoa. Não é algo que ela carrega de lá pra cá, como se tivesse feito uma opção. Isto vale mesmo para deficiências com chances de reversão, como um paraplégico que pode voltar a andar. Mesmo que recupere os movimentos, a pessoa não portou nada durante tempo algum. São os mesmos membros, antes paralisados, que agora voltaram a exercer suas funções motoras.

Em todos os casos, é mais prático e certeiro usar o termo “deficiente”, com o simples e usual “ente”, tão bem aceito em outras palavras, como inteligente, fluente ou paciente. Se por acaso a palavra lhe parecer pesada ou depreciativa, tenha certeza que é efeito da falta de uso, dos floreios eufemísticos ou de neologismos desnecessários da nossa língua. Para não haver dúvidas, alguém sem uma perna é deficiente físico. Alguém com diferenças cognitivas é deficiente intelectual. Cego é sinônimo de deficiente visual. Surdo é o mesmo que deficiente auditivo. Alguém com mais de um destes exemplos é deficiente múltiplo. E todos são pessoas com deficiência, ou apenas deficientes, o que não os faz melhor ou pior do que ninguém, simplesmente únicos, diferentes, com características específicas, como todo ser humano. No Brasil, somam 45,6 milhões de pessoas. Quase ¼ da população.

“Pessoa normal”, “retardado mental”, “necessidade especial”. O dicionário polêmico sobre o assunto é imenso. E nem sempre há consenso sobre quais os termos mais adequados. O que há, como em qualquer outro assunto, é uma convenção estipulada com base no pensamento vigente da época. Bobagem? Nem tanto. Leia uma revista feminina de quarenta anos atrás. Leia uma notícia de jornal do início do século passado. Leia a bíblia. Os tempos mudam e a linguagem muda junto. O que era permitido outro dia, hoje pode ser inaceitável. O que todo mundo dizia ontem pode ser crime amanhã.

Sim, o politicamente correto é chato e hipócrita. Não, as pessoas não deixarão de fazer piadas ou de dizer o que quiserem. Porém, ter um parâmetro do que é culturalmente ético e do que é legalmente proibido é fundamental para a nossa evolução, como indivíduos e como nação. Conhecer e ter costume de usar os termos adequados é mandatório. Promover uma caçada às palavras que perderam o seu lugar na nossa linguagem é imporante. Assim o pobre redator da gafe da Dilma ao menos sabe o erro que cometeu. Assim os humoristas têm ao menos noção de quando estão infringindo uma lei. Assim você pode escolher as suas palavras de forma consciente, o que ajuda muito em todas as situações, seja para discutir o relacionamento, seja para sustentar uma tese de mestrado.

Ontem almocei com familiares que voltavam de férias no nordeste. Um deles me contou que foi ao banheiro em um bar de praia e, quando chegou lá, foi surpreendido pelo que viu. Na porta do feminino estava escrito “buceta”, “periquita”, “perseguida”, “caverna”, “xana” e mais dezenas de nomes para “vagina”. Na porta do masculino, tinha “piroca”, “cacete”, “pinto”, “bilau”, “jeba” e outros incontáveis termos populares para “pênis”. É uma pena que ele não tirou uma foto. Teria sido a imagem deste texto. Porque prova que nós brasileiros, quando temos interesse por um assunto, não temos deficiência alguma de vocabulário. E que sempre encontramos a palavra certa a dizer.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Don e Lya


“As pessoas têm um desespero tão grande para que alguém diga a elas o que fazer, que elas aceitarão qualquer coisa.” - Don Draper, publicitário

Don Draper foi um dos profissionais de propaganda mais bem sucedidos na Nova Iorque dos anos 60. Inteligente, criativo e extremamente observador, criou slogans históricos como o “It’s toasted!”, dos cigarros Lucky Strike, quando a indústria de tabaco não tinha mais nada a dizer para diferenciar uma marca da outra. Quem fumaria um cigarro cujo único apelo é ser tostado? – perguntariam os mais céticos. Quem usaria uma marca cujo maior argumento é “Just do it”? – pergunto eu a você.

Infelizmente Don Draper, por mais genial que tenha sido, é apenas um personagem de uma série americana de televisão chamada Mad Men. Homem fictício, porém sábio. Entendeu rapidamente que a maioria das pessoas deseja ser comandada, em vez de comandar. Deseja seguir, em vez de liderar. Deseja ser informada, por alguém confiável – muitas vezes pelo simples fato de ser famoso –, sobre o que é bonito e o que é feio. Sobre o que é in e o que é out. Sobre o que é mais inteligente. Sobre o que é mais moderno. Sobre o que é mais elegante. E principalmente sobre o que é correto e o que é errado.

É por isso que nós publicitários utilizamos a figura da Ana Maria Braga para anunciar as ofertas do Carrefour, embora a apresentadora provavelmente não faça suas compras lá, nem tenha ideia do preço do quilo da cebola. É por isso que um político pouco conhecido sempre anda de braços dados com outro já bastante popular, numa manobra antiga, porém eficiente, para herdar a confiança da população, mesmo sem ter experiência, plano de governo ou capacidade para a gestão pública. É por isso que jornais e revistas convidam para colunistas pessoas cujas ideias já conquistaram um público cativo e cujo nome já seja associado ao pretensioso termo formador de opinião.

Que me desculpem as ovelhas que confiam cegamente no julgamento de padres, professores, médicos, jornalistas. Que me preguem numa cruz os fervorosos admiradores de Arnaldo Jabor, José Dirceu, Glória Kalil ou de qualquer outra pessoa que expresse um ponto de vista – sempre pessoal, é importante ressaltar – sobre qualquer assunto. Na minha humilde opinião, todo indivíduo deve ser formador de opinião. Com base em muita informação e em seus valores pessoais, todo ser humano deve tomar posse do direito de formar a sua própria opinião.

Na última semana estourou na internet uma polêmica sobre a coluna de Lya Luft, "O ano das criancinhas mortas", publicada na revista Veja, edição de 31 de dezembro de 2012. A escritora, espantada e revoltada com um novo massacre ocorrido em uma escola dos Estados Unidos, fez uma ressalva de que não poderia falar com propriedade sobre o assunto (alguém pode?), mas mesmo assim, decidiu emitir seu ponto de vista, pois há temas sobre os quais não se pode calar.

De maneira sucinta, Lya construiu o raciocínio de que crimes de tal desumanidade só poderiam ser cometidos por doentes mentais. E fez uma ligação perigosa entre tais crimes e a inclusão escolar de pessoas com deficiência intelectual. Confundiu deficiência com doença. E expressou a opinião de que a inclusão, forçada, gera uma necessidade de adaptação que pode estar acima dos limites das pessoas com deficiência e que pode torná-las infelizes e perigosas.

Como pai de uma criança especial, entendo o que a autora quis dizer. Consigo imaginar crianças com deficiência sendo alvo de piadas e brincadeiras de mau gosto nas escolas. É inevitável. E não acho que ser a chacota da sala ajude ninguém a se desenvolver.

Por outro lado, se a inclusão for efetiva, consigo imaginar turmas verdadeiramente heterogêneas, em que os alunos possam conviver com as diferenças e aprender a respeitá-las, não só no ambiente escolar, mas na vida. Consigo imaginar escolas com estrutura múltipla e com métodos de ensino mais abrangentes, mais focados no potencial de cada um, menos embasados em cartilhas. Tenho certeza de que será um desafio ensinar matemática para crianças com ritmos e capacidades diferentes de aprendizado, mas, se paramos para pensar, este desafio já existe mesmo sem a inclusão de crianças com deficiência intelectual nas escolas regulares de hoje em dia.

Entendo que meu filho não tenha a mesma condição de acompanhar o conteúdo programático utilizado atualmente pelo sistema escolar, mas não vejo por que ele deva estar separado na hora do lanche, na hora das brincadeiras, na hora de assistir a um filme, na aula de música, de pintura, na hora de esperar os pais na saída. Não aceito que as escolas possam se isentar da responsabilidade de ajudá-lo a aprender, sendo que a educação é um direito garantido por lei a toda criança, seja deficiente ou não. E mais: a convivência com as diferenças é benéfica para todos, tanto para alunos com deficiência física, intelectual ou múltipla, quanto para estudantes sem estas condições, professores e pais. Torna-nos mais humanos, mais tolerantes, mais pacíficos e mais preparados para a vida.

O tropeço de Lya Luft foi escrever uma opinião antipopular e pouco fundamentada, sobre um assunto delicado e complexo, em uma publicação de enorme abrangência. Para mim, isto não invalida a credibilidade da autora. É humana, como todos nós, passível a erros e capaz de admiti-los e consertá-los. A polêmica é até proveitosa, pois leva o assunto a pessoas que dificilmente seriam alcançadas se o texto não tivesse gerado controvérsias. Ouso apenas sugerir que você não siga irrestritamente a opinião de ninguém: nem de Lya Luft, nem dos que a estão apedrejando. Construa a sua. É mais seguro. Senão daqui a pouco Don Draper convoca a escritora pra falar do irresistível sabor da nova Doriana. E você fará o que ela mandar, sem nem perceber.


Caso queira ler o texto de Lya Luft e algumas das réplicas geradas, o site Inclusive fez um ótimo apanhado. Confira aqui.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Acho que cabe uma jubarte


Medidas não passam de pontos de referência mentais. Parâmetros comparativos e relativos, que mudam conforme o tempo e o espaço. Quantos calendários já existiram na história? Quantos valores já definiram o alto e o baixo, o rápido e o lento, o rico e o pobre? Quantos números de sapato você calça ao redor do mundo, nos mais diferentes países? E um dos efeitos mais interessantes da abstração e da relatividade dos sistemas de medição: quantas vezes retornamos a um lugar em que vivemos na infância e nos impressionamos com o fato de ele hoje parecer bem menor do que lembrávamos? A realidade é a mesma. Então, o que mudou? A perspectiva do corpo? Provavelmente não. Pois mesmo se agacharmos e ficarmos na exata altura que tínhamos quando crianças, o lugar continua diferente. E pequeno. O que mudou a medida da sala, dos quartos, dos móveis, das coisas, foi o tempo, culpado por transformar e ampliar as nossas referências mentais dia após dia. Antes, ali era o nosso mundo. Hoje é uma simples casa, grande no coração, pequena no mundo.

Há algum tempo, quando soube que seria pai, decidi comprar um veículo um pouco maior, para poder carregar carrinho, bolsa, brinquedos, babá e toda a bagagem que nasce junto com uma criança. Acostumado a dirigir uma lata de sardinhas, acabei adquirindo um carro médio para os padrões brasileiros, porém um transatlântico para as minhas referências mentais. Meu afilhado, que àquela época tinha pouco mais de cinco anos, e estava se especializando de forma sistemática em espécies gigantes do mundo animal, manteve o tema aquático e fez um diagnóstico bastante pertinente do espaço no banco de trás. “Acho que cabe uma jubarte.”

Apesar de não existir uma medida confiável para o tamanho de um texto – já que poucas palavras muitas vezes se tornam poemas grandiosos e que alguns livros imensos (os bons) são devorados sem que se perceba o passar do tempo – admito que esta crônica, se continuar divagando sobre as inúmeras métricas existentes no mundo exterior e interior, acabará ficando extensa demais, mesmo para o leitor mais persistente. Do jeito que as coisas vão, chegará o ano que vem, mas não terei chegado ao ponto central da discussão. Por isso, sem mais delongas, coloco na mesa o verdadeiro motivo da minha reflexão: qual a medida exata de um ano?

Se fossem apenas os 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos defendidos pela ciência atual, por que alguns anos parecem rápidos e outros morosos? Se todos os anos duram o mesmo tempo, por que alguns parecem grandes e outros pequenos? Por que alguns anos, mesmo depois de terminados, se estendem para toda a vida? E por que outros passam completamente despercebidos? Porque a medida de um ano não é feita pelos meses, nem pelos dias, nem pelas horas. É feita por espaços na nossa memória. De quantos espaços aquele ano conseguiu preencher.

Este foi o ano em que vi meu filho passar por uma cirurgia mais complicada do que o previsto e que experimentei o que é deixar o meu bem mais valioso nas mãos de outra pessoa. Foi o ano em que, numa internação hospitalar seguinte, o vi sair da sala de cirurgia com um acesso venoso instalado no meio pescoço, sem autorização prévia, e que senti a raiva de ter confiado na pessoa errada: uma lição para a vida. Foi o ano em que conheci cinco países em uma única e inesquecível viagem ao lado da minha mãe. Foi o ano em que mudei para o meu primeiro apartamento próprio, planejado do jeito que minha mulher e eu queríamos, uma realização que me trouxe – traz diariamente – muito mais alegria do que jamais imaginei.

Porém, o acontecimento do ano que provavelmente terá o maior impacto na minha vida chegou de mansinho, quase no fechar do ano, sem alarde, e, aos olhos menos atentos, é difícil de perceber. A verdade é que o Antonio começou a engatinhar. Do jeito dele, é claro. Tecnicamente, diz-se “engatinhar em bloco”. Isto significa que ele fica de quatro, avança com um braço, depois avança com o outro e, em seguida, puxa os dois joelhos para frente ao mesmo tempo, em bloco, como se fosse um sapo. Acontece apenas uma ou duas vezes ao dia, por distâncias muito, muito curtas, e por motivos muito, muito específicos. Nesta semana, o vimos engatinhar algumas vezes apenas para pegar o brinquedo preferido e para alcançar – e tentar lamber – as rodas imundas de um dos seus carrinhos de passeio. Chega a dar uma pena de tirar o carrinho de perto dele após tanto esforço. E fica um medo de desestimulá-lo a continuar tentando se mover. Mas enquanto ele não descobre outro atrativo que valha a pena, vamos deixando o carrinho de isca. Um dia ele morde aquela roda. Secretamente, parte de mim deseja ver isto acontecer.

Os dois últimos anos certamente estarão para sempre entre os maiores da minha vida. Fizeram experiências anteriores parecerem um pouco menores, como as casas em que vivemos na infância. Mudaram drasticamente as minhas referências mentais para o que é importante. Alteraram as minhas medidas para o que é ter sucesso na vida. E ao pensar sobre todas as conquistas realizadas nestes últimos dois anos, como acordar na casa nova, ou ver o Antonio se arrastar de um lado para o outro, meu peito se enche de orgulho e felicidade. Fica imenso de satisfação. Grande mesmo. Se medir por dentro, acho que cabe uma jubarte.

Feliz 2013.