segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Perdas





Nessa semana, em parte por conta da impossibilidade de decorar tantas senhas e nomes de usuários, em parte por causa do meu analfabetismo digital, corro o risco de perder o domínio flizam.com. Por isso, este é possivelmente meu último post sem a indesejável extensão “blogspot” no nome do blog. Veja bem: possivelmente. Após algumas ligações internacionais para o provedor do domínio, seguida de algumas horas de recuperação de logins, passwords e atualização de cartões de crédito, acredito que o problema está resolvido, apesar de não ter recebido confirmação alguma.

Essa microscópica experiência, quando comparada a tudo de mais importante que pode acontecer na vida, trouxe de volta à minha mente uma verdade tão frequente, tão inegável, que perceber a sua existência chega a parecer clichê: temos uma propensão a dar o verdadeiro valor para as coisas apenas quando estamos prestes a perdê-las.

Por favor, perdoem-me por utilizar filosofia tão barata. A questão é que essa ideia se presta perfeitamente como abertura de um relato de outra experiência, que tive há cerca de vinte dias, esta certamente bem mais relevante do que minha caça a senhas perdidas na internet.

Todos os anos, de 18 a 25 de setembro, o Brasil celebra a Semana Nacional de Trânsito, com campanhas de conscientização para motoristas e uma agenda nacional para discutir os problemas relativos à segurança nas ruas e estradas. Neste ano, tive a oportunidade de participar da criação da campanha, com objetivo de ajudar a reduzir os acidentes de trânsito no País.

Independentemente da ideia criativa, pois basta assistir o comercial para entendê-la, o ponto importante desse trabalho foi ter histórias reais por trás desse comercial: a história das vítimas de acidentes de trânsito que aceitaram participar da campanha.

Para quem não trabalha em publicidade, a produção de um comercial pode parecer algo bastante confuso e impessoal. É preciso acertar iluminação, figurino, maquiagem, câmera, som, cenário, figuração, entre uma série de outros detalhes técnicos, que podem transformar uma simples cena de alguns segundos em um trabalho de muitas horas, envolvendo dezenas de pessoas.

Cheguei ao set de filmagem – um hospital de reabilitação para crianças com deficiência – por volta de oito da noite e encontrei o cenário típico: várias pessoas do staff andando de lá pra cá com equipamentos de vídeo, plugando cabos, ligando refletores, acertando trilhos para a câmera, medindo iluminação e fazendo tudo o que se faz antes de qualquer filmagem profissional.

Porém neste caso havia uma diferença. Em vez de atores tranquilos, sentados em suas cadeiras, esperando pelo chamado do diretor, desta vez encontrei famílias de três vítimas de acidentes de trânsito, olhando com alguma dúvida (e curiosidade) para toda aquela movimentação, sem ninguém ao lado que explicasse de maneira mais clara tudo o que estava acontecendo.

No momento que entrei no set, senti que havia uma tensão no local. Os nossos participantes eram pessoas com sequelas graves de acidentes. E por algum momento, senti que ninguém por ali havia conversado com eles da forma que eu gostaria que tivessem conversado comigo, caso eu tivesse topado levar o Antonio para um comercial, por exemplo. Pior que isso, senti que algumas pessoas evitavam olhar para eles, como se não quisessem ser indiscretos ao observar a evidente deficiência.

Aquela situação me incomodou profundamente. Precisava quebrar o gelo e estabelecer uma relação mais humana – e menos profissional – com aquelas pessoas. Imediatamente pedi para ser apresentado às famílias. Falei com eles um a um, contei que eu sou pai de uma criança com deficiência e que conheço de alguma forma o calvário deles em incontáveis sessões de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, entre outras terapias de reabilitação. Expliquei que fui um dos criadores da campanha e agradeci a coragem de exporem as suas histórias em prol de uma causa importante, que é reduzir os acidentes.

Em questão de minutos, percebi o clima mudar. Pouco a pouco, as famílias sentiram-se mais à vontade. E a equipe no set também. A situação ficou mais confortável para que eles pudessem compartilhar as suas histórias. Criamos vínculo. Apesar de meu filho não ser vítima de acidente, e sim ter nascido com uma síndrome genética, confesso que naquele momento me sentia mais parte daquelas famílias do que da equipe de profissionais que estava produzindo a campanha. Temos uma luta em comum por nossos direitos. Sofremos os mesmos tipos de preconceitos. Senti que estava junto dos “meus”. E tenho certeza de que a recíproca foi verdadeira.

O primeiro participante que conheci foi o João, um pai de família, de São Paulo. No dia do acidente, ele estava passeando de moto com a esposa, quando decidiu parar no acostamento de uma rua. De repente, um carro desgovernado surgiu do nada e bateu neles. João perdeu uma das pernas até a altura da coxa. A esposa dele foi jogada para longe e faleceu por falta de socorro. João hoje anda com prótese e trabalha para recuperar os movimentos do braço esquerdo, que também foi atingido.

Em seguida conheci a Wellen e sua família. A Wellen tem 22 anos e sofreu um acidente com 17. Estava no banco do passageiro, sem o cinto de segurança. O motorista sofreu apenas pequenos ferimentos. Wellen, por outro lado, foi jogada pra fora do carro e ficou em coma por dois anos. Depois de acordar, progrediu muito. Deixou de se alimentar por sonda e já consegue ingerir alimentos pastosos. Porém ainda não recuperou os movimentos do corpo e não se comunica pela fala. Aprendeu um sistema de comunicação por sinais dos olhos. E está batalhando para conseguir se comunicar por computador.

Por fim conheci a Andrea, uma garota de 29 anos que sofreu um acidente em 2010. Ela estava voltando de uma noite com as amigas. Ao buscar o carro na casa da amiga, chegou a ser convidada para dormir lá, mas recusou. Andrea não se lembra detalhadamente do que aconteceu, mas parece que bateu num carro, sem grandes consequências. Não se sabe exatamente porque, em vez de descer do carro e resolver o problema, Andrea fugiu da situação. Nesta fuga colidiu novamente, desta vez num poste, e com gravidade. Andrea também ficou em coma e hoje se movimenta com bastante dificuldade, com auxílio de andador. Também teve a fala e a visão afetadas.

Apesar dos imensos desafios que têm à frente e de obviamente ainda sofrerem muito ao relatarem suas histórias, todas as famílias que participaram da campanha mantêm uma postura de perseverança. O maior sinal de atitude positiva é ter objetivos de vida. E isso todos eles mostraram ter. João recusou a aposentaria a que tem direito e está treinando para participar de maratonas e campeonatos de futebol. Wellen está focada em conseguir se comunicar por computador para voltar a estudar direito, curso que interrompeu por causa do acidente. Andrea chegou a dizer na campanha que “não desiste nunca” e quer voltar a trabalhar.

Além de ter desenvolvido um inevitável afeto em tempo recorde por essas pessoas, fiquei imaginando o quanto eles devem ter passado a dar valor à vida que por pouco não perderam. Infelizmente os acidentes trouxeram mais consequências ruins do que boas. Mas é inegável que após esse tipo de experiência as pessoas mudam pra melhor. As perdas e ganhos tomam novas proporções. E é nisso que me identifico com eles. É nesse ponto que o Antonio me transformou.

Assim como João, Wellen e Andrea, eu sei o quanto o simples ato de andar é importante e difícil. Sinto diariamente na pele (na verdade, na coluna) as dificuldades do meu filho. Assim como os parentes de João, de Wellen e de Andrea, também sei como é passar por uma tragédia na família – tragédia não é a melhor palavra, mas é a que vou usar. Sei como é viver aquilo que ninguém quer viver. Experimentei na minha própria vida aquilo que chamamos de azar.

Olhando para trás, vejo que o que mais me tocou ao fazer essa campanha foi ver que mais do que perder uma perna, mais do que perder os movimentos, mais do que perder a fala, aquelas famílias perderam algo que só atrapalha as nossas vidas: a sensação de invulnerabilidade. E entendi que é por isso que me sinto como um deles. Porque foi exatamente isso que eu perdi, no instante em que vi meu filho nascer.

Se quiser conhecer, assista o making of e o filme da campanha aqui.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Chorume literário


Preocupado com o futuro e motivado por uma imortal esperança de organizar minha vida financeira de um jeito mais inteligente, decidi ler alguns livros de autoajuda sobre o tema.

Não assumo isso sem embaraço, já que autoajuda é aquela categoria que invariavelmente traz valores depreciativos ao seu leitor, seja ele um verdadeiro desesperado, seja ele apenas um curioso.

Assim como todo mundo, também sinto pena ao observar alguém tirando uma edição de “Como Fazer Amigos & Influenciar Pessoas” da prateleira. A mim, parece óbvio que a lição número 1 para se fazer um amigo deveria ser “não leia um livro cuja capa revele que você não tem nenhum.”

Porém, ao ter coragem de ler meus livros de autoajuda (juro que não são muitos) somente em ambientes privados, geralmente trancafiado no quarto, percebi algo bastante preocupante: precisar de ajuda é algo que envergonha as pessoas. E buscar ajuda – uma atitude louvável 100% das vezes – é visto, quase na mesma porcentagem, como fraqueza ou algo constrangedor.

Talvez o preconceito esteja em pagar por essa ajuda, já que um bom bate-papo com um amigo ou um familiar é um remédio largamente utilizado desde quando o homem parou de marretar mulheres na cabeça e começou a se comunicar. Porém, dentro de cada um de nós reside algum preconceito inexplicável com relação a ressarcir alguém ou adquirir algum produto que ofereça uma ajuda mais profissionalizada. Psicólogo é coisa de louco. Personal trainer é frescura de rico. Professor particular é pra burro. Site de namoro é pra quem não consegue comer ninguém. E a lista segue.

O problema é que, com medo de julgamento ou de virar chacota entre os amigos, ficamos em um limbo em que nem buscamos alguém que possa resolver a situação, nem adotamos uma atitude “faça você mesmo”, tão comum nos Estados Unidos, não por acaso, um dos países que mais cria best-sellers mundiais de autoajuda.

Independentemente das inúmeras promessas falsas estampadas nos títulos desses livros, e mesmo com a compreensível equiparação a chorume editorial – muitos, de fato, são terrivelmente escritos e traduzidos –, as imensas mesas sobre o tema na porta de cada livraria são um sinal inegável de algo importante: todos nós queremos algum tipo de ajuda. Na maioria das vezes, com soluções fáceis, sim. Muitas vezes amparados por teorias improváveis, sim. Cegos por ilusões e fantasias, sim. Mas queremos. E não há mal nenhum em pagar por ela, ainda mais se for um livro barato. Relaxe e goze. Se preciso, em 10 lições. 

Feita toda essa defesa, segue abaixo a lista de livros de autoajuda que pretendo escrever. Decidi seguir a primeira lição da minha atual leitura financeira: “faça seu dinheiro trabalhar por você”. Como bom publicitário, resolvi lançar essa campanha teaser, com custo zero, para ver se cola. Quem sabe alguém por aí se interesse por um dos títulos? Ou quem sabe um dia eu tome vergonha na cara e realmente arranje um bom tema para escrever.


  1. Como Prometer Textos para Segunda e Fazer com que as Pessoas Aceitem na Terça. Ou na Quarta.

  1. Crie Teses Semanais com Pensamentos Baseados em Nada

  1. Cozinha Criativa – Desculpas e Receitas para o Lanche da Meia-Noite

  1. 500 Coisas Mais Importantes do que Lavar a Louça

  1. Seja Feliz Dormindo – Lições Para Quem Ainda Não Tem Filhos

Aceitamos encomendas.


Dale Carnegie, autor de "Como Fazer Amigos & Influenciar Pessoas", pensando nos milhões que ganhou.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Banzo


Há alguns meses eu havia escrito sobre uma árvore que tinha ganhado de presente e sobre quanta vida e alegria ela tinha trazido para a nossa casa. Estranhamente, pouco depois de publicar o texto, a planta começou a definhar. O processo foi longo e sofrido. Com imensa tristeza, vimos as folhas começarem a queimar nas pontas, depois a secar e, por fim, assistimos a cada uma cair no chão. Os meses passavam e parecia que a árvore dava seus últimos suspiros. Com muito esforço, chegava a gerar brotos de novas folhas, mas por alguma razão desconhecida, por mais que se aguasse ou trocasse o vaso de lugar, algo simplesmente os impedia de vingar. Olhei para aqueles galhos secos e senti que era uma luta perdida. Imaginando que a nossa varanda não era o ambiente ideal para aquela espécie, comecei a considerar outras árvores para colocar em seu lugar.

Apesar do meu parco conhecimento botânico – e recentemente passei a assistir a um excelente programa na TV Cultura, “Um Pé de Que?”, para diminuir essa defasagem –, na hora me lembrei das pimenteiras e da crença de que elas murcham quando há mau-olhado em algum lugar. Afinal, se existe algo que irrita grande parte da população é alegria, felicidade e bom-humor, ainda mais quando motivados por coisas simplórias, como plantas ou sol, em vez de coisas mais importantes, como dinheiro. E de fato, àquela época, de mudança para uma casa nova com varanda e sem boletos de aluguel, eu provavelmente deveria parecer insuportavelmente contente aos olhos de quem estava tendo uma semana qualquer.

Superstições deixadas de lado, não comprei pimenteira, nem olho grego, nem espelhos para colocar na parede. Na verdade, em momento algum levei a sério a hipótese de que a árvore pudesse morrer por causa de inveja ou de energia negativa. Tendo a precisar de algo mais científico para me ater. E como toda casa sempre tem algo faltando ou algum conserto pendente, deixei outros assuntos ganharem prioridade antes de decidir o que fazer.

Um evento interessante que já deve ter sido amplamente estudado e descrito cientificamente é a capacidade humana de parar de prestar atenção em coisas que vemos todos os dias. Um exemplo clássico é quando dirigimos “no automático”. De tão acostumados com um caminho, quando percebemos, já estamos chegando ao destino e mal lembramos de termos percorrido as ruas anteriores. Eu, distraído por vocação, tenho praticamente uma cegueira para objetos rotineiros. Sou o típico sujeito que nunca encontra o abridor de latas na gaveta. Perco mais tempo procurando o carregador de celular do que de fato carregando a bateria. E, como era de se esperar, havia semanas que eu não observava a planta na varanda.

Foi por isso que ontem, no meio do jantar, tomei um susto ao perceber que a árvore estava repleta de folhas verdes e tinha quase o mesmo aspecto com que chegou para a gente. Minha mulher, com toda a naturalidade, lançou a sua teoria. “É assim mesmo. As folhas secam e depois nascem de novo.” É muito provável que ela tenha razão, mas confesso que essa tese de ciclo da planta me parece simplista e um tanto sem graça. Meu imaginário sugere que a árvore deva ter passado por um período de adaptação ao novo lar. Um “banzo” vegetal, aos moldes dos escravos africanos, que chegavam a adoecer e até a morrer de saudades da sua terra natal. 

Só o tempo dirá o que aconteceu. Se as folhas caírem novamente, voltaremos a varrê-las do chão, desta vez com a certeza de que logo tudo voltará ao normal. Se a árvore se mantiver cheia daqui por diante, ganha vida a minha hipótese, de que era preciso um tempo para ela se acostumar com a casa, para se sentir à vontade e voltar a respirar. E quanto à crença do mau-olhado, caso tenha existido algum, não tenho dúvidas de que acertamos no antídoto: simplesmente ignorar.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Para Cora


Há cerca duas semanas fomos avisados, por uma mensagem para o grupo de pais do qual fazemos parte, que uma criança americana com deleção no mesmo cromossomo que o Antonio – o cromossomo 6 – não resistiu às complicações da síndrome.

Não se pode dizer que ela tinha a mesma síndrome que o nosso filho. Deleções são partes apagadas do código genético. Se a criança nasce com um determinado pedaço apagado, as complicações podem ser problemas renais, respiratórios, entre outros. Porém, se o bebê nasce com outro pedaço perdido, embora do mesmo cromossomo, as questões de saúde podem ser completamente diversas, como problemas cardíacos, convulsões e assim por diante. Cada gene perdido é responsável pela formação de algum sistema diferente. E já que os genes apagados nas crianças raramente são coincidentes, pode-se dizer que a síndrome do Antonio (que não tem nome, é chamada apenas de Deleção do Cromossomo 6) dificilmente apresenta as mesmas conseqüências de saúde para as crianças ou o mesmo padrão de desenvolvimento. A única característica constante é o grave atraso motor e o retardo mental. As complicações de saúde – e sua gravidade – variam imensamente de criança para criança.

De toda maneira, a perda de uma criança com uma síndrome parecida, mesmo que minimamente, com a do meu filho, me comoveu de forma sem igual. Especialmente porque a mãe da menina relatou os últimos dias dessa luta, numa forma de compartilhar a dor, ou de refletir sobre tudo o que estava acontecendo. Não sei os motivos. Só sei que não foram dias fáceis para aquela família. Depois de inúmeras cirurgias sem grande sucesso e de incontáveis tentativas de tratamentos com medicamentos, foram avisados pelos médicos que não havia mais o que fazer para ajudar o coração da criança a funcionar. Ainda havia uma possibilidade de uma nova cirurgia, mas o bebê estava cansado, e teria poucas chances de sobrevivência. Os médicos dividiram que respeitariam qualquer decisão da família, mas emitiram a opinião que talvez o melhor fosse conviver com aquela criança da melhor maneira possível, pelo tempo que fosse possível. Por respeito à vida daquela pequena criança, talvez fosse a hora de parar de tentar salvá-la.

Não posso imaginar o quão difícil deve ter sido para esses pais tomar uma decisão tão dura. A bebê, chamada Cora, era a terceira de uma família completamente saudável. Sua irmã e irmão, poucos anos mais velhos, não viam a hora de voltar com a caçula para casa, quando seus pais tinham que pensar – sem perder a cabeça – na possibilidade de autorizar que aquele bebê nunca mais voltasse.

Com uma dor transmitida a cada frase, a mãe relatou que eles decidiram pela felicidade do bebê. Sentiam que sua filha estava cansada. Sentiam que haviam tentado de tudo. Decidiram tirar os tubos de respiração. Decidiram interromper a medicação. Decidiram deixá-la viver melhor, mesmo que isso fizesse o coraçãozinho dela parar.

Cora ainda sobreviveu 48 horas. Sorria sem parar. Trocava carinhos com a mãe. Recebeu visitas de inúmeros amigos da família. Cantaram “Three Little Birds” para ela. Ganhou últimos beijos dos irmãos. O relato deixou claro que foram momentos inesquecíveis. Vê-la sem enjoar por causa dos medicamentos. Vê-la bem, sorridente, brincando com as mãozinhas, mesmo que com o aviso dolorido dado pela sua respiração, cada vez mais curta e difícil.

Depois de muito lutar e de ganhar de presente dois dias de vida normal, Cora faleceu nos braços de sua mãe, numa noite tranquila, pouco depois da meia-noite, ouvindo cantigas, coberta de beijos e amor.

Na manhã seguinte à noite em que li esse relato, abracei meu filho longamente. E percebi que algo havia mudado em mim. Entendi, de forma mais clara do que nunca, o quanto tivemos sorte com o Antonio, mesmo nos dias mais difíceis. Relembrei os últimos meses e vi que todas as questões de saúde que passamos com ele sempre tiveram resultado positivo. Desde que ele nasceu, não perdemos uma batalha sequer.

Ao ver aquela família, igualmente dedicada, ter que tomar a difícil decisão perder o seu bebê, entendi que o bem-estar do meu filho não é somente resultado de bons cuidados ou do amor que temos por ele.

A vida – dele, minha, da nossa família – é um presente. 
E desde aquele dia, tenho procurado formas de agradecer.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Índice de felicidade


Deu no Estadão, em 26 de junho de 2013:

Um centro de estudos chamado Fundação Nova Economia, sediado em Londres, em parceria com uma organização ecologista chamada Amigos da Terra, criaram o Índice Planeta Feliz, calculado com base na sensação de bem-estar e na expectativa de vida dos cidadãos, além da eficiência ecológica do país.

Para minha surpresa, essa foi a lista dos 10 países mais felizes.

1º: Costa Rica
2º: Vietnã
3º: Colômbia
4º: Belize
5º: El Salvador
6º: Jamaica
7º: Panamá
8º: Nicarágua
9º: Venezuela
10º: Guatemala 

O Brasil aparece na 21ª posição entre 151 nações. Países desenvolvidos também não foram muito bem. O Reino Unido está 41º lugar, seguido por Japão (45º), Alemanha (46º), França (50º), Itália (51º), Canadá (65º), Estados Unidos (105º) e Rússia (122º).

* * *

Conclusões. Para ser feliz, é preciso: 

a) morar numa praia com água azul safira; 

Ou verde esmeralda. Ou tão transparente que você vê o fundo do mar a metros de profundidade. O importante é ter água. Se possível, ardente. Com gelo e um enfeite de guarda-chuva colorido. 

b) não sentir frio; 

Chega de molhar os pulsos antes de entrar no mar. Chega de abrir o chuveiro e pular pra fora do box até a água esquentar. Ser feliz é andar de camisa aberta. É dormir com ventilador na cara. É achar natural usar estampa de hibiscos. É ver a temperatura cair pra 27º C e chamar de inverno. 

c) saber dançar ritmos caribenhos; 

Veja bem: supõe-se que mesmo com praia e sol, é difícil ser feliz na solidão. E já que 9 entre os 10 países mais felizes se situam na América Central, ou no norte da América do Sul, é possível que a sua alma gêmea se encontre suada e rodopiante numa pista de dança similar ao inferno de Dante. Vá treinando suas cantadas em espanhol. Reveja a abertura de Rainha da Sucata. Porque se este estudo estiver certo, o casal mais feliz do mundo deve se vestir, se comportar e se mover como Gloria Estefan e Sidney Magal. 

d) ter uma raquete de matar mosquitos; 

Calor e umidade são o Viagra dos insetos. É só chover que não sobra ovo sobre ovo. Lagoa vira ópera. Poste de luz vira rave. E a gente vira buffet, para pernilongo aperitivar. Antes de tentar ser feliz nas proximidades da linha do equador, vale treinar uns saques e voleios na quadra de tênis. Você vai precisar. 

e) desconfiar de índices sobre felicidade. 

Em uma rápida busca na internet, o primeiro resultado foi uma matéria sobre outro estudo, dessa vez realizado por pesquisadores da World Gallup, uma organização que tem a intenção de investigar pensamentos e comportamentos da população mundial por meio de amostras representativas.

Entre 2005 e 2009, eles fizeram um levantamento em 155 países a fim de medir dois tipos de bem-estar.

Primeiro, eles pediram aos voluntários para analisar sobre a satisfação geral com suas vidas. E em seguida, fizeram perguntas sobre como cada sujeito se sentiu no dia anterior.

Segue o resultado dos 10 países mais felizes.

1º: Dinamarca
2º: Finlândia
3º: Noruega
4º: Suécia
5º: Holanda
6º: Costa Rica
7º: Nova Zelândia
8º: Canadá
9º: Israel
10º: Suíça

O Brasil aparece em 12º. E exceto a Costa Rica (destino que eu e você devemos considerar seriamente para as próximas férias), nenhum dos países da lista anterior apareceu nesta segunda. Isso somente comprova que felicidade é algo imensurável, incomparável e baseado em infinitas variáveis, todas sensíveis a fatores externos, como desastres naturais ou situação econômica. Tentar estabelecer uma métrica, seja financeira, seja psicológica, não passa de um embaralhamento de informações com resultados aleatórios. Tão confiáveis quanto uma carta de tarô ou uma bolinha na roleta.

Este é um daqueles casos em que compreender a situação macro é bem simples do que analisar um cenário micro. Se entendemos com facilidade que qualquer comparação entre a felicidade dos suecos e a dos guatemaltecas é mera questão de focar em um ou outro aspecto, por que temos tanta dificuldade – e por que damos tanto crédito – quando comparamos a nossa própria felicidade com a de pessoas que estão ao nosso redor? Passamos a vida nos equiparando uns aos outros e repetidamente nos sentimos frustrados, por maiores que sejam as nossas próprias conquistas. Por que não conseguimos compreender que é impossível ter o máximo em tudo? Por que não nos satisfazemos simplesmente com o que temos ou realizamos?

Também sofro desse mal. E não tenho a resposta para essas perguntas. Porém acredito que são mais felizes as pessoas que sabem definir o que amam. E sempre que conheço alguém interessante, dou um jeito de descobrir alguns dados nesse sentido. Tenho uma curiosidade especial pela comida que cada um mais gosta. Porém, em vez de perguntar “qual a sua comida preferida?”, geralmente lanço uma questão maior: qual seria a sua última refeição, se você pudesse escolher? Se tivesse no corredor da morte, o que pediria para servirem a você?

É interessante ver como essa mudança de perspectiva – a proximidade da morte e o tempero da “última vez” – faz as pessoas demorarem um pouco mais para responder. É mais interessante ainda ver que raramente as refeições escolhidas são pratos sofisticados ou inacessíveis. São receitas simples, que não precisamos estar na Dinamarca, nem na Costa Rica para comer.

Meu prato no corredor da morte – pode mudar ao longo do tempo – atualmente seria estrogonofe de frango, arroz branco, batata palha, uma Coca-Cola, um chope, um pudim de leite, um pouco de ambrosia e um café espresso. E assim percebo que posso ser imensamente feliz no almoço de amanhã. Sem segredos, sem pesquisas, sem muito dinheiro. É questão de querer.