segunda-feira, 30 de abril de 2012

Tinta escura


Pintura de Iberê Camargo
Há três dias o Antonio só ri. Tivemos uma semana difícil, escapamos por pouco de mais uma internação, com febres dantescas e com a dupla infalível para combater tudo o que é infecção mais ou menos indeterminada: antibiótico e injeção. Mesmo assim, desde a sexta passada, o Antonio não tira o sorriso do rosto. Toca a abertura da novela, ele ri. Entra debaixo do chuveiro, ele ri. Até de olhos fechados, naquele estado embriagado de quem está mais pra lá do que pra cá, se fizermos algum barulho engraçado, ele sorri.

É difícil precisar quanto tempo se perde da vida ao ter um filho. Em todos os casos é muito. Caso contrário, não haveria tanta gente se lamentando ao descobrir uma gravidez não planejada. Mais do que as previsíveis noites em claro, perde-se, em maior ou menor grau, as viagens a dois, os encontros com os amigos marcados em cima da hora, o tempo disponível para ler, para andar de bicicleta, para fazer uma pós-graduação. Aprendemos a comer comida fria, depois de todos os parentes, sem relação direta com a hora em que o corpo sente fome. Criamos a capacidade de cochilar em qualquer oportunidade e nas mais improváveis posições. Nosso próprio bem-estar cai para segundo lugar nas prioridades. Antes, é preciso colocar o rebento para dormir.

Até aqui nada de novo. Quando um casal decide ter uma criança, já tem uma boa noção de praticamente tudo o que está por vir. Porém, quando esta criança vem com uma síndrome, com alguma complicação, é como se queimassem o mapa. Como se quebrassem a bússola. Não se sabe direito por onde começar, nem para onde ir. Simples tarefas instintivas como a capacidade de respirar e de comer perdem a garantia. É como comprar um carro novo, girar a chave e não ter certeza se o motor vai ligar. E ainda ser alertado de que, em alguns casos, ele pode explodir.

É difícil precisar quanto tempo se perde da vida ao ter um filho especial. Em todos os casos é muito. Caso contrário, não haveria tanta gente se lamentando ao descobrir uma síndrome inesperada. Mais do que as previsíveis noites em claro, perde-se, em maior ou menor grau, a chance de ver seu bebê começar a andar quando completa um ano, perdem-se encontros com a família e com os amigos para cuidar de problemas de saúde, perde-se a serenidade ao acompanhar o desenvolvimento do seu filho, com uma amarga dose de decepção a cada marco que começa a atrasar. Aprendemos a dar valor para pequenas conquistas – na verdade gigantescas – como a habilidade de sugar, engolir, mastigar. Criamos a capacidade de dormir com os ouvidos abertos, alertas para qualquer ruído, ou falta dele. Nosso próprio bem-estar cai para décimo segundo lugar nas prioridades. Antes, é preciso medir a febre, tentar dar dois ou três remédios sem que seu filho cuspa, tentar dar um pouco de comida sem que ele engasgue e tussa, rezar para que não vomite, limpar tudo quando vomita, tirar o muco da garganta, ouvir a respiração, fazer nebulização e, dependendo do diagnóstico daquela semana, ainda ter dúvidas se o seu rebento conseguirá dormir.

Por buscar encarar as dificuldades do Antonio de forma positiva e por de fato amá-lo incondicionalmente, talvez eu transmita a sensação de que está sempre tudo bem. Talvez eu passe a impressão de que, apesar de não ter a menor ideia do que pode acontecer com o meu filho, está tudo sob controle. Por fazer questão de iluminar as conquistas dele em vez dos obstáculos, e por acreditar que ele surpreenderá as pessoas – especialmente a mim – em todos os sentidos, talvez meus relatos não sejam tão transparentes assim. Talvez não sejam absolutamente fieis à realidade dos fatos.

Infelizmente, apesar de desejar ardentemente o contrário, o amor não tem poder de cura. Pelo menos quando seu filho tem um pico de febre no meio da madrugada. Ou quando sufoca até ficar roxo. Em momentos assim, não adianta você simplesmente amá-lo fervorosamente. Não adianta simplesmente esperar que tudo dê certo. Quando a crise é grave, calma e otimismo são até perigosos. Amenizam o senso de urgência. Atrasam a ação. Quando você finalmente desiste de se iludir e toma alguma atitude, pode ser tarde demais.

Há semanas me incomoda o enganoso clima de equilíbrio e tranquilidade que meus textos evocam. Muitas vezes tenho falado sobre felicidade e outras introspecções positivas, mas não raro estou escrevendo de dentro de um quarto do hospital, assistindo meu filho passar por exames invasivos, procedimentos traumáticos, dolorosos, sem contar toda a angústia e desconforto de uma internação. Senti a necessidade de compartilhar que há um lado muito pesado nesta história toda. Precisava colocar um pouco de tinta escura neste quadro que as minhas palavras desenham. Senão ele não seria nem mesmo uma representação do real. Seria pura encenação. Um faz de conta sobre a vida com uma criança especial. Uma criança absolutamente encantadora, sim, mas com questões de saúde e comprometimentos cognitivos preocupantes, que criam um dia a dia nada fácil e um futuro indecifrável.

Entretanto, apesar do meu lado aflito ter tomado as rédeas nos últimos dias, apesar de eu ter sucumbido por alguns instantes à minha compreensível vontade de me transformar em vítima – vontade que todos os pais de crianças com necessidades especiais enfrentam, mas muitos, como eu, procuram rejeitar –, faz três dias que o Antonio só ri. Pelo visto, a dor foi embora. Pelo jeito, os incômodos cessaram. E a cada oportunidade que encontra, ele abre aquela risada com os olhinhos fechados, exibindo os oito dentes, lindos, mais separados do que juntos. Garanto que o meu lado carrancudo ainda está no comando. Tenho andado com o humor nas trevas e um vinco de preocupação na fronte. Posso assegurar que as minhas queixas e lamentações estão tentando resistir. Mas, felizmente, acho que não vão conseguir.

38 comentários:

  1. Fábio, mesmo você passando esse seu lado neste texto que você mesmo diz que tenta esconder, você e a Ana lidam com toda a situação difícil do Tom, as incertezas, as preocupaçōes de uma maneira simplesmente surpreendente. Por isso que o Tom é essa pessoa feliz. É visível isso. Porque ele tem as melhores e mais incríveis pessoas ao lado dele. Parabéns para os dois, o Tom recebeu a melhor família que ele poderia ter!

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    1. Importante mencionar que "as melhores e mais incríveis pessoas ao lado dele" incluem família e amigos que sempre nos deram todo o apoio e amor para segurar as pontas. O Antonio pode até ser um reflexo da minha atitude e da Ana. Mas nós também somos um reflexo de todo o afeto e suporte que encontramos em nossa volta, de pessoas como vc e tantas outras. Obrigado por estar sempre por perto. Isso nos faz muito bem. bj

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  2. Fabinho, dessa vez não vou fazer glu glu.
    Quero que você, Ana e ursinho Antonio saibam que podem contar comigo: como motoboy pra buscar um remédio na farmácia se precisarem (apesar de não andar de moto), como "pocket book" de piadas do Ary Toledo para distrai-los quando tudo parecer pesado demais ( apesar de sempre rir no meio), como "rezadeira" sempre pedindo pela saúde de Antonio ( apesar de mexer os lábios dublando algumas partes da Ave Maria)... Enfim...
    Beijos aos 3...

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    1. Manu, acredite: sabemos que os amigos estão aí para o que der e vier. Essas questões pequenas do dia-a-dia estão sob controle. Fique tranquila. O que queremos mesmo é encontrá-la mais vezes, e o Nico também. Venha ver programas ruins de TV com a gente. :)

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    2. Obaaa!!!! Fim de semana é sempre um bom momento pra assistir programas ruins... O "Vai dar namoro", do Rodrigo Faro na Record é sensacional!!! É só marcar...
      E assim que Antonio estiver zerado, que tal fazermos uma farofa do parque??

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  3. Fábio, abrir o coração é muito bom. Parece que a carga fica menos pesada. Só quero te falar que, independente de termos filhos especiais ou não, os pais sempre perdem noites de sono, perdem programas de última hora e até alguns que já estavam programados e sofre quando os filhos tem algum problema, principalmente se esse problema envolve alguma doença. Nem sei se vc é religioso ou não e provavelmente nem goste de frase feita, mas dizem que Deus nunca nos dá uma cruz mais pesada a ponto de não podermos carregá-la. Bjs

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    1. Cléo, tenho muita fé sim, mas acredito em tanta coisa que não sei se sou católico, protestante, espírita, macumbeiro e, em alguns momentos, chego a me identificar com alguns pensamentos do ateísmo, mesmo crendo em Deus. Então, já que sou esta bagunça toda, aceito de bom grado quando me dizem a frase da "cruz". Entendo o que ela quer dizer. Apenas às vezes paro para pegar um fôlego, porque certamente esta foi a cruz mais pesada que já carreguei. E a mais valiosa também. Um bj e boa semana.

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    2. Fábio, eu fui criada na religião católica, mas c/ o passar dos anos tb fiquei essa bagunça toda. Acho que desde que a gente não faça mal a ninguém e nem a nós mesmos, pq não de tudo um pouco, né? Ninguém duvida que sua cruz seja pesada, assim como a da sua esposa tb, mas vcs vão conseguir carregá-las, afinal o mais importante de tudo é que vcs carregam c/ amor. Outra coisa, nós pais temos que ter consciência de que não somos super heróis, e por isso mesmo às vezes a gente dá uma desmoronada, grita, chora, mas depois a gente junta os cacos e segue em frente, afinal estamos nesse mundo p/ cumprir uma missão e enquanto essa missão não for cumprida, temos que seguir em frente. Bjs

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  4. Força. Tudo vai ficar bem. E apesar da gente nunca saber exatamente o que significa 'bem', aos poucos a vida entra nos eixos de novo. E a gente se adapta, se acostuma - e vive feliz (na maior parte das vezes, ao menos). Bjos, Emilia

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  5. Filho,

    "Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo.

    Pego esta frase do Ibere Camargo para confirmar a tese de que a beleza da vida não vem somente do tempo bom, os tempos duros nos trazem outro ideal de beleza, o da verdade, o ideal de uma verdade muitas vezes pungente e sofrida."

    Nada melhor representação de beleza e sofrimento do que os quadros do Ibere, homem extremamente sensível, que durante sua vida perseguiu a beleza, a sensibilidade, o ético e o justo.

    A vida dói...dizia ele e nesta fase do quadro que colocaste, a fase " Ciclistas", que podemos ver no museu dele na nossa Porto Alegre querida, ele esplicava - Sou um andante.Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza. Um ser à procura de suas verdades e raízes.

    Me emociono de ver quanta beleza consegues colocar nos teus textos. Mesmo este que traz o sabor da renúncia a tantas coisas valiosas para ti, consegues, pela tua verdade, transformar o dissabor de dias difíceis em norte e exemplo para enfrentar a tua e a nossa caminhada.

    Amor, força, beleza, leveza, arte, alegria - que a força destas palavras cheguem e permaneçam em vocês os três.

    Saúde !

    Beijos.

    Mãe

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    1. Que lindas palavras,Neiva, uma verdadeira lição de vida.

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    2. Teus comentários vêm sempre cheios de preciosidades, mãe. Vamos tocando a vida, né. Se ficar parado, não se chega a nenhum lugar. O texto é um retrato mais preciso da semana passada. As coisas já estão mais calmas. bj

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  6. Fábio,nem sempre, as coisas são do jeito que a gente quer ou que a gente sonha,problemas td nós temos,alguns mais graves,é bem vdd,dói muito,qd um filho da gente passa por alguma situação delicada,a gente sofre em dobro,a gente daria a vida pra que nada acontecesse de ruim com nosso rebentos,mas infelizmente,esse é um poder que não temos. Ter um filho especial,cabe a pessoas especiais, que por algum motivo especial foram escolhidas e que com certeza, terão a força, a sabedoria(que a vida vai nos ensinando a cd episódio que vai acontecendo)e a fé para enfrentar com serenidade,paciência e muito amor td o que a vida nos destinou.Bj grande e muita força pra vc e sua família

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    1. Sonia, entendo plenamente quando você diz que a dor de pai e mãe com o sofrimento de um filho é universal. É mesmo. Não acho a dor de pais de crianças com deficiência maior ou menor do que a de ninguém. Pai e mãe nascem pra sofrer pelos filhos, numa simples febre ou numa doença terminal. Tenho plena noção de que sou apenas mais um a passar por esta experiência. Espero ter força e paciência, como você diz. Sei que vou precisar. bj

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  7. Obrigada. Sonia.
    Beijos.

    Neiva

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  8. Em alguns momentos essa "tinta escura" vem visitar nossas vidas, mas temos que ter coragem para derrotá-la, para que as cores claras nos traga a leveza que a vida é. Sei que é difícil no começo, não saber o que vai acontecer... Mais só tenho a dizer que tudo vai melhorar, caminhar no escuro não faz bem a alma e o Antonio vai te guiar para a luz muitas vezes.

    Cada post que leio aqui é uma riqueza e aprendizado. Obrigada por compartilhar esses momentos!
    Parabéns por tudo, pela força e coragem!
    Beijo!

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    1. Tuigue, é uma alegria compartilhar as minhas experiências, pois tenho me alimentado muito de histórias como a tua. Quando a gente toma uma rasteira da vida, tem duas opções: ficar no chão ou levantar. Só levantei de verdade quando comecei a tomar contato com pessoas que vivem ou convivem com deficiência, e que, cada um com sua experiência, têm me mostrado muitas possibilidades de ser feliz.

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  9. Fábio,

    Chorei enquanto lia e agora que comento. As razões são muitas, mas a principal delas porque sei bem o que você descreve já que vivi isso tudo. Usando as minhas "tintas escuras", confesso que esperei muito ler um texto assim de um pai que na prática meu filho não teve e minha emoção chega ao pico porque o tempo passou e hoje constato com os prêmios que amor e o perdão nos trazem com a certeza de que as coisas têm o formato que nossos olhos dão a elas.
    Fundei a Associação Síndrome do Amor (www.sindromedoamor.com.br; www.trissomia18.com.br) com o objetivo de acompanhar famílias que vivem a realidade que vivemos. Tenho um milhão de coisas para conversar com você, mas de cara um convite para participar desse trabalho permitindo que seu blog esteja lincado ao nosso site. Um dos sonhos e chegar nos Papais que precisam tanto de suporte e muitas vezes não sabem como pode ser esse processo.
    Parabéns pela sua iniciativa linda, simples e tão humana. Abs
    Marília (marilia@sindromedoamor.com.br)

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    1. Marília, que bom que leu, gostou e se identificou. Já tinha ouvido falar da Associaçnao Síndrome do Amor ao ler uma matéria sobre a querida Valentina, no Correio Braziliense, jornal de Brasília. Escrevi para a mãe dela no blog e hoje temos contato pela internet. Quanto a lincar o blog no site, fique à vontade. É uma honra. Você pode compartilhar/reproduzir os textos que quiser também, basta colocar os créditos e o link para o blog. Passei nos teus sites (novamente, pois lembro de já ter acessado antes), fiquei um tempão olhando as fotos das crianças... um aprendizado imenso. Vamos conversando. Meu contato é simples. Estou SEMPRE aqui e confiro SEMPRE o email fabioludwig@hotmail.com Um bj

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  10. Fábio,

    Eu tinha escrito uma coisa bem legal, mas apagou na hora de publicar.

    Eu só queria dizer, sem tom de aconselhamento, mas com carinho de irmã que sente muito a sua dor e que ora muito pela sua família: sofra sempre que for necessário; aqueles que têm coragem de sofrer, têm muito mais coragem para serem felizes.

    E daí que você está triste? Deixa estar...só os bons corações se despedaçam. Mas depois se reconstituem!!

    Beijo, Beta.

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    1. Beta, temos sofrido sim, como vocês muitas vezes podem testemunhar ao vivo. A dor é imensa quando vemos o Tom em um estado absolutamente fragilizado, dentro de hospital. Sempre passa pela cabeça tudo o que ele poderia estar fazendo e aprendendo se não fosse obrigado a estar ali. Só não posso alimentar muito este sofrimento, porque ele é uma sombra que está sempre à espreita, sempre querendo tomar conta. Há um limite tênue entre o sofrimento produtivo, saudável, e o sofrimento prejudicial, doente. E muitas vezes cruzamos esta linha sem perceber. Pelo Antonio, não posso deixar isto acontecer. // Este blog é uma maneira muito eficiente de diluir a dor. Às vezes hesito na hora de publicar, por receio da exposição. Mas dividir o sofrimento tem se mostrado a melhor maneira de fazê-lo perder a força. bj

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  11. Meu querido Fábio: ao ler seus posts sinto um aperto no coração. É natural, muito humano, demasiado humano, como diria Nietzsche, que se queira sempre para os entes queridos o melhor do mundo. Mas lendo seus textos sinto também que você e a Ana encontraram, no amor incondicional pelo Antônio, a melhor maneira de enfrentar este enorme desafio. Amor, coragem, firmeza e perseverança são alguns dos valores que você demonstra aqui e nos ajudam a refletir. Comemoramos juntos cada sorriso do Antonio.
    Parabéns pela extrema sensibilidade de escolher um artista tão ímpar como o Iberê Camargo. Muitos não gostam da densidade e das "tintas escuras" características dele. Mas Iberê parece nos mostrar, como a vida, que depois dos caminhos escuros pode se chegar à claridade.
    Aproveito aqui para fazer um agradecimento à Marilia Castello Branco. Quando o Antonio nasceu fui buscar respostas na internet para tantas dúvidas que tínhamos sobre o Antonio, e fiquei sabendo da Associação Síndrome do Amor. Fiquei muito sensibilizada e solidária com os textos publicados lá.
    Um beijo grande em vocês e no Antonio,
    Miriam

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    1. Mimi, o aperto no coração é natural, precisamos aprender a conviver com ele. É respirar fundo e seguir em frente. O apoio de vocês ajuda muito. Um bjao

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  12. Excelente site! Só a título de curiosidade há um agregador de conteúdos chamado Agrega Pais, que é voltado para família, uma ótima forma de divulgar seu site para este público bem específico.
    http://agregapais.com.br/

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    1. Obrigado pelo elogio e pela dica. Vou divulgar por lá.

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  13. Filho,

    Sempre orientei meu comportamento imaginando que na média, todo ser humano tem um somatório de qualidades e defeitos mais ou menos igual. Uns, muito inteligentes para os padrões atuais, são tão inábeis em determinadas atividades que parecem retardados - isto é, na média são equivalentes aqueles "burrinhos" que são muito habilidosos em coisas sem muito valor para a sociedade em que vivemos. Nesse sentido sempre me chamou atenção o lado sensível das pessoas que possuem alguma síndrome - na minha opinião eles identificam rapidamente o "trigo" e rechaçam fortemente o "joio". A experiência que tenho vivido com o Tom Tom, mostra que a tarefa de criá-lo é difícil e não conta com a compreensão da maior parte dos humanos mas, raciocinando com teoria da igualdade da capacidade humana total já referida, vejo, com muita alegria, que ele começa a apresentar reações que enchem os que o cercam de esperança de que ele vai interagir conosco e nos ensinar muitas coisas que ignorávamos. Hoje sabemos que o Tom Tom, enxerga, escuta, tem sentimentos muito bem caracterizados quando vê um quadro, brinquedo ou foto colorida,quando atende alguém chamá-lo e vira sua cabecinha e dá um sorriso encantador com seus dentões, quando ao ser solicitado, bate palmas, palmas que,sem dúvida, são as palmas mais charmosas e emotivas que já vi e ouví.
    Filho, o caminho é sinuoso e escuro, a forma de percorrê-lo, penso eu, é buscarmos constantemente luz no fim do túnel e acreditarmos que ela vai nos levar a um final iluminado, com paz e alegria.
    Um beijo com toda força que um pai e avô pode transmitir
    Roberto Ludwig

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    1. Pai, tenho certeza de que não só o final, mas o caminho será também de alguma maneira iluminado. Ao mesmo tempo que vivemos em constante preocupação, vivemos momento de imensa alegria com ele. Isso compensa todo o esforço. bj

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  14. Fábio, kerido.

    Lembrei do meu pai quando fala d meu nascimento. Quando tudo era incerteza. Achei lindo teu texto!

    Sem pretensão de te aconselhar, minha dica é: permita-se. Permita-se chorar, isolar-se, ficar carrancudo de vez em quando. "Pra renascer todo mundo precisa morrer às vezes.". Não lembro quem disse isso, mas eu concordo. É muito importante dar vasão à fraqueza para que possa reerguer-se com mais força. Admiro muito quem consegue transitar tão brilhantemente entre a dor e a alegria. Resumindo: sou tua fã confessa também pelo humor das trevas e pelo vinco na fonte.

    Beijo aos 3.

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    1. Ká, a vida é transitar entre a dor e a alegria, não é. E aprender a dar valor aos dois. Obrigado por tua companhia por aqui. bj

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  15. Esqueci de dizer: estou fazendo uma disciplina no Mestrado em Psicologia na área de Práticas Sociais e Constituição do Sujeito. A disciplina é chamada de Processos Semióticos (que é o estudos dos signos, imagens). Tenho estudado toda a técnica que um artista utiliza pra conseguir fazer uma verdadeira obra de arte. Tenho certeza que vc tem feito um lindo quadro, Fábio - ainda que contenha tinta escura.

    Beijo de novo.

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  16. Fábio encontrei seu blog por um acaso visitando outro blog na internet que (desculpe) nem lembro mais o nome, o seu se tornou um fascinio diante de qualquer outro e já foi pra lista de favoritos. Lindo, todos os seus posts. Acredito que Deus quando escolhe os pais para crianças especiais tbm escolhe pais especiais, pq só esses são capazes de carregar todas as dores e alegrias que esses serzinhos são capazes de trazer em seus dias. Pais comuns não suportariam tantas emoções. Fiquei encantada pelo fato de você não transformar seu blog em um mundo "fantástico" mostrando um mundo de fantasias, mas você deixa claro que é difícil, porém não impossível tudo o que você e sua esposa vivenciam, que vcs choram, sofrem juntos e que mesmo assim a vida precisa continuar e que o Antonio não precisa ficar escondido de ninguém, que o mundo precisa aprender a conviver com pessoas especiais sempre que o levam a todos os lugares que frequentam.
    Sendo assim, só me resta continuar "acompanhando" seus relatos, e sempre pedindo a Deus que continue aí com vocês.
    Um grande abraço pra vcs e um forte beijo no fofissimo Antonio.

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    1. Flávia, comentários como o seu, de pessoas que não têm contato conosco, porém acabam se deixando conquistar por nossa história, são os que me deixam mais contente e surpreso com este blog. É uma alegria ver os textos ganhando leitores frequentes, e tem sido um aprendizado imenso todas as dicas e mensagens que todos deixam por aqui. Obrigado por palavras tão gentis. bj

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  17. É difícil não comentar este texto. Porque quando um filho fica doente, e recorrentemente, nos sentimos verdadeiramente no escuro. Minha filha mais velha, é asmática gravíssima. É alérgica a tudo. Eu tentei mantê-la numa bolha. Ela lutou todo o tempo para ser independente. Hoje é mãe de um Chiquinho, que também é alérgico. É dos meus filhos, a com menor estatutura(cresceu pouco, magérrima), vive em crises, mas acabou de ser aceita para fazer mestrado. Nesta cidade que é a causa maior da alergia dela. Durante toda a adolescência, tentei, apesar da dor que isso me causava, incentivá-la a fazer uma universidade longe de São Paulo. A despeito de tudo, é aqui que ela quer ficar. O que tem haver com seu filho com deficiência? É que ambos são filhos! A deficiência dela é respiratória. A dele é um buraco negro ainda. Ambos ficam no escuro, sem ar. E nós pais, também. Ela já tem 29 anos, eu já me preparei dezenas de vezes para um velório mental, e apesar de tanta aflição e dor, ela segue morrendo de rir. É dos meus filhos, a mais risonha. É só um compartilhamento. Que faz bem a mim mesma. E espero dizer que escuro é escuro mesmo, mesmo com a ajuda dos nossos pais, dos familiares, dos amigos, nesses momentos de escuro, nos sentimos absolutamente impotentes. É esse o escuro. O escuro da impotência. E a vida é essa montanha russa, cada dia com seu lado brilhante, luminoso, sol, e depois a noite escura como breu. Fique bem vocês três. Fiquemos bem todos nós. Gi

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    1. Gi, teus comentários, repletos de vivência e reflexão, são uma mina de ouro. Obrigado por participar disto daqui. Grande beijo

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  18. Pô Fábio,

    Evitei ler os comentários anteriores pq talvez me privaria de escrever para não soar repetitivo. Parabéns, um dos melhores textos do blog. Escrever é em muito se mostrar humano e é totalmente compreensível essa "revisão" que tu faz dos teus textos anteriores e que, talvez, durante essa revisitada entenda que alguns textos ou que o somatório deles podem passar uma imagem mais feliz, ou mais confortável do que efetivamente é a situação. Cara. Que bom! Entendo que sobre a dor e os desafios os pais já estão com PHd, a ausência é desse gás que dá esperança e que dá uma dimensão maior de amor. E talvez é isso que alguns pais buscam e encontram no teu espaço.

    Não lembro quem era o entrevistado, mas quando perguntado sobre o que ele pensava sobre utopia. O cara respondeu que utopia é algo que fica ali, distante 100 passos da gente, e que a cada passo que nós damos ela se distancia mais um passo. Mas que ela fica lá para que sigamos caminhando. Tu, mesmo sem a pretensão de ser referência ou "caralho a quatro", tem tornado essa caminhada mais leve para um monte de gente boa.

    Cara. Felicidade para vocês. Muito obrigado.

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    1. Giancarlo, que honra um comentário destes. Como você mesmo disse, não tenho pretensão nenhuma por aqui. Tenho comentado com pessoas próximas que escrever, na verdade, é algo que faço por mim. Para desopilar. Fico imensamente feliz que "um monte de gente boa" aproveite estes desabafos para processar as próprias experiências também. No fundo, somos todos muito parecidos, temos receios muito parecidos, e buscamos coisas muito parecidas. Acho que a honestidade do blog, tanto nos textos, quanto nos comentários, faz todos nós sentirmos uma sensação de pertencimento e identificação. E não se sentir sozinho é algo que traz paz. Grande abraço. Obrigado pelo comentário.

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