segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Férias de mim


Tenho um amigo que foi de Brasília ao Rio de Janeiro a pé. Um louco. Embarcou em um projeto profissional – andar por 100 dias, passar por mais de 100 cidades e registrar a situação dos esportes no Brasil –, mas tenho certeza que, enquanto queimava as solas dos tênis e as batatas das pernas país adentro, caminhava também para o seu próprio interior. Fez uma viagem pessoal.

Lembrei disto neste mês em que meu filho foi à praia pela primeira vez. Ele voou para mil e tantos quilômetros de mim. Porém, mesmo arrependido por não ter me organizado para acompanhá-lo, aproveitei para também fazer uma viagem para longe. Tirei férias do corre-corre que é ser um pai de família e visitei, por alguns poucos dias, a vida que tinha antes de casar e colocar um bebê no mundo. Voltei a um tempo distante, em que domingos ainda eram feitos para dormir.

Sempre que retorno a um lugar que não vou há anos tenho dificuldade de encaixá-lo perfeitamente no cenário deixei guardado na memória. As árvores, as casas e muitas vezes até as pessoas estão paradas, localizadas nas mesmas coordenadas, mas a cena toda, por alguma razão que não sei explicar, parece ter perdido o verniz. A única exceção talvez sejam os cheiros. Estes sim dão vida ao passado. Cheiros são o melhor meio de transporte para um tempo feliz.

As minhas férias das trocas de fraldas e das idas ao supermercado, em que voltei para os meus vinte e poucos anos, não foram diferentes. Tive mais uma vez essa sensação de que tudo em volta estava meio desbotado. Procurei os cheiros, mas encontrei apenas o azedo da cerveja, e confesso que ultimamente ando pendendo para os aromas do vinho. Talvez isso ocorra porque sempre tirei da vida, na idade certa, o máximo que ela pode me dar. Tenho carinho pelos dias que passaram, mas o agora me atrai muito mais do que a cor amarelada dos momentos que ficaram para trás.

Em compensação, enquanto meu filho se sujava de areia, eu cheirava diariamente seu travesseiro. Dormia todas as noites no lado oposto da minha cama, o lado que preserva o perfume da minha mulher. Trabalhava muito. Lia bastante. Procurava me ocupar, na esperança de apressar o tempo. Contava as horas para ver a minha família encher a casa de barulho e alegria novamente.

No fim, apesar de ter tirado alguns preciosos dias para mim, estava cansado de caminhar sozinho. Foi então que lembrei do meu amigo e da sua aventura a pé pelas estradas. Imagino que ele deva ter gostado de chegar tão longe, que deva ter achado divertido ir a lugares esquecidos, mas, nos últimos passos, tenho certeza de que estava com uma vontade imensa de voltar para a sua casa, para a sua cama, para o seu dia-a-dia.

Foi assim que me senti quando minha mulher e meu filho me deixaram livre para viajar, mesmo que fosse apenas internamente. Fui contente visitar o meu ontem, mas só me senti em casa quando retornei para a minha realidade atual. Não quero pintar um quadro mais bonito do que é. Minha vida é cheia de problemas, como a de todo mundo. Mas nessas férias de mim, percebi que não quero estar em outra pele, não quero estar em outro tempo. No desembarque do aeroporto, quando avistei minha mulher chegando com meu filho no colo, meu coração disparou. Ter saudade do presente é o mais próximo que se pode chegar de ser feliz.

34 comentários:

  1. Como sempre, um texto maravilhoso! A última frase está matadora, falou tudo!

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  2. "Ter saudade do presente é o mais próximo que se pode chegar de ser feliz." Isso não podia ser mais verdade. Frase incrivelmente perfeita que vou usar por aí. Beijos nos 3. <3

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  3. Fabinho, desde que terminei o texto não consigo parar de pensar na última frase... A mais pura verdade!!
    E como fico feliz em ver que a primeira pessoa a comentar aqui foi a Patricia Salgado, grande amiga e leitora do blog por minha influência!!
    Beijos!

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  4. Show, como sempre.
    Engraçado, tô vivendo uma situação parecida, mas do lado oposto. Vim viajar com o Theodoro e deixei o marido lá, livre para fazer as coisas dele (no caso trabalhar ainda mais, sem ter hora pra chegar). Confesso que sometimes eu sinto uma invejinha velada disso, de poder tirar uns dias ou até poucas horas pra voltar ao passado, lembrar como era não sentir cheiro de leite azedo em todas as minhas blusas, não ter olheiras absurdamente profundas e indisfarçáveis, poder usar salto alto (tá, tu não sabe o que é isso, mas deu pra entender, né?). Me permiti agora, por poucos minutos, esse luxo, já que o bebê tá sendo babado pelos avós...
    Fui ao passado, dei uma espiada, senti seus cheiros :) e tratei de voltar rapidinho pra cá. Meu presente é cansativo sim, mas definitivamente é a melhor época da minha vida.
    Obrigada pelo texto.
    Bj pra família

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  5. Que lindo, Fábio. Tb sinto isso quando penso na minha vida. Acho que hoje é muito melhor do que tudo que já me aconteceu. Um abraço e boa semana!
    Ana.

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  6. Fábio, o texto de hj me vez voltar no tempo e me fez recordar a primeira vez que deixei minha filha c/ minha mãe e fui ao teatro e jantar fora c/ meu marido, passamos o tempo td só falando nela. É bem assim né? Adorei o texto. Bjs

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  7. Ser feliz não é tarefa para qualquer gente. Mesmo as simples., como nós.
    Bem sei que não almejas fortunas. Bem sei que não almejas sucesso. Estes dois motores, dinheiro e sucesso nunca foram teu ponto forte. É certo que não são estímulos errados, mas nunca foram teu forte. Para ti não interessa se possuis uma Tucson ou um Clio, mas interessa ler o recente ganhador do prêmio Jaboti, para não falar do Nobel. Seria desonra para ti não conhecer J. M.Coetzee, por exemplo.
    Ser feliz, sentir a felicidade não é tarefa simples, nem para gente simples.
    Porém, consegues perceber que a vida é feita de ter e dar, de ter e não ter, de esperar, de valorizar, de refletir, de aquietar, de cuidar e de abraçar.
    Complexo, muito complexo este tema de ser feliz.
    Mas este post teu me passou a certeza de que a felicidade vem de dentro de nós, das nossas histórias íntimas, das nossas percepções individuais de vivências. E que é possível, às vezes.
    Às vezes. Talvez por isso é que é bom.
    Até segunda.

    Mãe

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  8. Rejane Silene de Castro20 de dezembro de 2011 07:51

    Fábio, muitas são as vezes que nos transportamos para um eu desconhecido, buscando algo que os traz recordações do eu conhecido... uma linda e necessária viagem de crescimento pessoal e talvez um auto conhecimento necessário nos dias de hoje. Estamos tão preocupados com o tempo, mas que tempo? Tempo passado ou tempo presente? Tempo é ele que nos conduz vida a fora!
    Fábio, seu texto ficou, novamente, maravilhoso! Viajar é muito bom... mas voltar é melhor ainda!!!

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  9. Fala, Fabião! Eu sou viciado em passado. Confesso. Mas para não me preocupar em pensar que não encontro felicidade em meu presente, ponho os dois pra transar, lembrando sempre do Paulinho da Viola: "Eu não vivo no passado, o passado vive em mim". Abraço! Da Vila

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  10. Patrícia, sempre tenho vontade de alterar meus textos depois de publicados. Mas acho que esta última frase manteria intacta. Bj

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  11. Amandita, tenho certeza que você é uma das pessoas que aplica bem esta frase no dia-a-dia, mesmo com tantas coisas boas que estão só no passado.

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  12. Manu, você é a leitora mais influente deste blog. Volta e meia percebo que algum comentário veio de pessoas a quem você indicou o blog. Muito obrigado.

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  13. Dani, nós homens de vez em quando temos uma inveja velada de poder ficar com os filhos num dia de semana também. É a divisão pai e mãe necessária. Mesmo em tempos modernos, no fundo ainda vivemos nas cavernas. Um olha a cria, o outro sai pra caçar.

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  14. Obrigado, Ana. Uma boa semana para você também. Até segunda.

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  15. Cléo, é bem assim. Nas primeiras vezes que saímos, eu (mais do que a Ana) comia rápido pra voltar logo pra casa. Hoje já consigo relaxar.

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  16. Mãe, o "às vezes" é que faz ser bom. Tens razão. Um bj

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  17. Rejane, sua última frase é uma grande verdade. Viajar é bom, voltar melhor ainda.

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  18. Da Vila, não me entenda mal. Amar o passado é uma maravilha. Há pessoas queridas que só estão lá. O problema é querer viver no passado, ou viver uma vida apenas de lembranças. Aí vira uma prisão e torna a vida de agora um martírio.

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  19. Lindo seu texto e lindo o comentário da sua mãe. Vejo de onde saiu seu talento. Beijos Isa

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  20. Fabio, essas viagens pra dentro da gente fazem muito bem, pq ao retornarmos ao presente, percebemos o qt crescemos e aprendemos e que ainda teremos um futuro que nos espera.Vc ganhou uma fã,adoro seus textos.

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  21. Fábio, já fico constrangida de deixar comentário mas,
    depois de ler teu texto, sinto uma vontade enorme de te chamar de Fabinho (como Manu) e dizer: lindo texto! Quero o livro!!! Beijo

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  22. Ana, todos me chamam de Fabinho, inclusive no meu meio profissional. Ficarei feliz se me chamar assim. Bj

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  23. "Ter saudade do presente é o mais próximo que se pode chegar de ser feliz." Que frase mais linda! Parabéns!

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  24. Fabio,
    Tirar ferias de nossas vidas e sentir saudade do que vivemos e o maior presente que podemos ter.
    Isto e perfeito e gratificante!!!
    Poucas sao as pessoas que recebem essa dadiva! A Ana e o Antonio sao os maiores responsáveis por isto.
    Eu estava aqui pensando: nao tenho a menor saudade das segundas feiras q nao conhecia seu blog!
    Bjos!!!

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  25. Fábio, este fim de semana comentei com meu maridão Savio Zambrotti, quem me presenteou com o seu blog e suas palavras, que virei leitora assídua e desejava muito escrever para você, mas que ainda não tinha tido coragem.
    Bem, hoje estou aqui, apenas para dizer que poucas pessoas conseguiram traduzir tão bem o que sempre senti sobre amar incondicionalmente, sobre família e todo o "pacote" que vem junto: altos e baixos, alegrias e tristezas e o sentimento de sempre querer pertencer a este amor e esta família, como você. Virei fã, do tipo que acorda às segundas e abre o blog para ler se vocês três estão bem, se o Antônio, da tia Flávia, fez de novo, mas principalmente para receber ânimo, alegria, força uma boa dose de fé na vida. Grata, mil vezes grata. Beijos nos três e espero que o Natal tenha sido maravilhos. Flávia Michels

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  26. Carol, que bom que o blog deu uma melhorada nas segundas. rs. Um beijo. Cadê a visita? O Antonio quer te conhecer.

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  27. Flávia, algumas pessoas têm comentado que pensam em comentar, mas acabam desistindo. Fico feliz que tenha "tomado coragem". Sempre comento que, além de dar vazão a um monte de pensamentos e sentimentos, a diversão do blog é receber de volta uma série de ideias, uma quantidade imensa de afeto e valiosas informações que chegam pelos comentários de quem lê. Fico lisonjeado - e surpreso - quando recebo uma mensagem como a sua. E sinto uma alegria sem tamanho de ver que os textos são capazes de criar esse vínculo, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente. Desejo um grande 2012 para você e sua família também. Mande meu abraço ao Sávio. Um bj, Fábio

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  28. Me identifiquei totalmente com o texto. Aliás, mais uma belo texto. Gostei tb do que vc disse sobre os cheiros. Até hoje quando o cheiro de manga madura invade minhas narina sou trensportado mentalmente para minhas férias de verão passadas na centenária fazenda onde o meu pai nasceu e passou a meninice em Guarany, Minas Gerais. Eu e mais um enxame de primos passávamos os dias apenas de calcão, descalços brincando sob mangueiras que pareciam mais velhas que o próprio universo e que cobriam o chão com um tapete aromático de mangas amarelas. Parabéns!

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  29. Querido Bad Hairday, também tenho cheiros guardados na memória. Bifes de filé de uma avó, em especial. Me leva de volta num segundo.

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  30. Fábio, percebe por que o Antonio é seu filho? Só um cara tão sensível poderia receber um filho tão raro. Obrigada por me emocionar.

    Ps.: meu professor também adorou seu blog.

    Beijos e um ano iluminado aos três!

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  31. Obrigado a você Kaká, por voltar aqui, por comentar, por passar o blog para as pessoas. Um beijo. E um ótimo ano.

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